Blog, Gênero Filhas da Terra: Jovens mulheres em movimento

3 de dezembro de 2020

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Larissa Rodrigues, 23 anos. Nascida e criada no Quilombo Sítio Veiga que fica a 25 km do município de Quixadá aqui no sertão central do Ceará.

Eu cresci dentro de uma realidade dos movimentos sociais de base comunitária. Minha comunidade é uma comunidade Quilombola reconhecida desde o ano de 2009, então desde os meus dez anos de idade eu tenho tido a oportunidade de participar dessas discussões e de entender um pouco sobre a luta Quilombola , sobre a luta do nosso povo.

Uma das partes que eu acho fundamental na minha história é a oportunidade ao estudo. Até o ensino fundamental II eu estudei em uma escola no  meu distrito na zona rural, minha família é toda de agricultores e por conta disso eu me interessei muito na época pra fazer um curso técnico em agropecuária, só que eu nunca pensei fazer um curso técnico em agropecuária da forma convencional.

Eu tinha um sonho grande de participar de uma escola família agrícola, e tive a oportunidade no ano de 2012 de ingressar na Escola Família Dom Fragoso que fica no município de Independência a uns 200 km da minha casa. Na época foi uma vitória muito grande pra gente porque éramos duas pessoas da minha comunidade concorrendo a dezoito vagas em um processo seletivo envolvendo mais ou menos umas 150 pessoas concorrendo também dentro dessa quantidade de vagas .

E a gente conseguiu passar dentro desse processo, passamos três anos aprendendo muito dentro da comunidade, aprendendo muito dentro da escola também porque a pedagogia da alternância ela proporciona que a gente construa esse conhecimento realmente da base e como minha mãe diz: “foi nesse momento que eu virei gente”. 

Quando a gente ia pra escola, nós tínhamos que sair no domingo às 7 da manhã e a gente passava o dia inteiro na rodoviária esperando o ônibus que passava às 5 horas da tarde, e era nesse horário que a gente ia pra Independência.

Todo esse processo foi muito importante pra gente se desenvolver e se empenhar também dentro das atividades na comunidade e posteriormente me ajudou muito para que eu pudesse ingressar no curso superior. Fiz o Enem e consegui uma nota mediana que deu pra conseguir uma bolsa do Prouni para cursar Ciências sociais, no qual consegui uma bolsa 100%, e inicie o curso  mesmo sem ser o que eu desejava na época, eu tinha muito interesse em fazer o curso de jornalismo mas eu não tinha condições de me manter na capital nem ir pra nenhum outro lugar porque não tinha grana.

Continuei fazendo a faculdade e comecei a me identificar. No último ano da faculdade eu tive uma oportunidade muito bacana de participar do programa Passarinhas: Mulheres inspiradoras, que está sendo exibido no canal futura desde o ano de 2019. Pra minha família foi algo muito diferente porque eu nunca tinha imaginado protagonizar uma aventura dessas, conheci muitas mulheres no Ceará, passarinhas pra mim foi realmente transformador porque me mudou enquanto pessoa e tive a oportunidade de mostrar de uma forma real como é viver no sertão, como é ser uma mulher sertaneja, como é ser uma mulher quilombola, indigena  e tudo isso de uma forma muito realista e pra mim esse foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.

Atualmente eu sou técnica em agropecuária, no qual hoje eu trabalho com isso, consegui formar também na faculdade e hoje eu trabalho em uma ONG chamada CETRA – Centro de Estudos do Trabalho Assessoria ao Trabalhador, no qual aqui no estado do Ceará é referência no trabalho da agroecologia, gênero, com povos tradicionais. Tenho aprendido muito nesse sistema da extensão rural apesar da gente ter muitas dificuldades no sentido das políticas públicas que foram cortadas por este desgoverno.

Percebo que ainda existem muitas amarras para a gente se libertar, inclusive amarras mentais. Esse período eu tive refletindo muito sobre o quanto a gente tem retrocedido dentro das comunidades tradicionais, pelo menos aqui no Ceará. Essa consciência de classe precisa ser pensada de uma forma diferente, e eu acredito que essa luta pode mudar a consciência das pessoas e trazer  a consciência a serviço do nosso povo que por tanto tempo foi aí surrupiado e nos foi roubado tudo que tínhamos.

Na minha comunidade estamos desenvolvendo um projeto que se chama Mulheres negras em movimento, e o mais bacana é porque a gente teve a oportunidade de escrever. Eu e uma outra companheira da comunidade estávamos dentro da equipe técnica que escrevemos este projeto de comunicação para a comunidade, e esse projeto traz justamente essa garra e história das mulheres quilombolas. Vamos fazer inclusive podcast e um ebook digital com a história dessas mulheres. 

Uma questão que eu acho muito importante é que nós, mulheres quilombolas, somos as principais responsáveis pela guarda e manutenção das sementes crioulas e da manutenção da biodiversidade dentro dos quintais produtivos em nossos territórios. Na nossa comunidade, as mulheres sempre foram a frente do tempo, elas sempre foram lideranças e elas sempre conduziram os processos, e com isso a gente percebe que as mulheres estão criando mais coragem para assumir as falas e estão ficando mais empoderadas e tendo consciência de onde está e de onde podem chegar. As mulheres estão assumindo vários papéis de liderança e representação dentro das associações comunitárias, dentro da casa de sementes e dentro de alguns outros grupos produtivos, e isso é muito bacana.

O meu maior sonho é ver a minha comunidade conquistar a titulação das nossas terras  e de ver a juventude engajada em todos os processos da comunidade, como era na minha época.

A frase que mais tem me tocado nos últimos dias é uma frase da Angela Davis que diz ”Quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta junto com ela”. Isso tem me feito refletir muito sobre o meu lugar no mundo, porque hoje eu não estou dentro do meu território mas a história da territorialidade, ela anda ligada com a gente. Ocupar todos os espaços na sociedade tem sido um desafio muito grande para todas nós mulheres negras  e esse desafio, ele é muito importante, é uma luta que vale a pena.

E eu fico muito feliz inclusive de poder fazer parte desse processo de representação em alguns espaços e graças a todo esse esforço, as políticas públicas e a força da espiritualidade eu hoje sou uma mulher negra, quilombola, com um diploma da universidade e com um diploma do curso técnico, sou bordadeira, artista, membra de um coletivo das pretas aqui em minha cidade e sou militante dentro de todo esse processo que pra mim é  motivo de muita gratidão por ter alcançado todas essas conquistas, que por muitas vezes são oportunidades que não batem em nossa porta.

Participação da Larissa na série: “Passarinhas: Mulheres inspiradoras”

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