Blog, Gênero Filhas da Terra: Jovens mulheres em movimento

3 de dezembro de 2020

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Esse texto faz parte da campanha Raízes, iniciativa promovida pelo GT Gênero do Engajamundo, para participar dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres apresentamos essas histórias no IGTV do nosso Instagram, mas também trouxemos para aqui para o nosso Blog.

Simbora, conhecer as histórias de cinco meninas e mulheres que lutam fora dos grandes centros urbanos?

Confira as cinco páginas com as histórias e se inspire também!


ELLI CAFRE

Travesti da zona rural, Do interior de Russas no Ceará. Jornalista pela Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN.

Quando saí da minha comunidade na Zona Rural , chamada Jardim de São José , fui estudar em Russas, numa escola de tempo integral, pública, e minha mãe viajou pra morar em Fortaleza. Eu fiquei morando só com meu irmão, e à noite fazia sempre algum curso, os 3 períodos ocupados com alguma coisa e isso foi muito importante pra eu tentar dar um objetivo na minha vida. Fazia um curso profissionalizante de comércio, que foi muito importante para focar no que eu queria fazer na faculdade e depois fui pra Mossoró inicialmente cursando marketing e mais  depois eu transferi e comecei a fazer jornalismo na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN.

E eu me encontrei no jornalismo, muito, muito mesmo, no começo achei que talvez não fosse pra mim, não fosse o que eu queria fazer porque eu era muito de exatas mas todo teste que eu fazia dizia que eu devia fazer comunicação. No meu segundo semestre eu comecei a ser editora de vídeo na TV de Mossoró e a edição de vídeo foi o que me levou para o mundo do audiovisual, e futuramente me levou pro canal futura para fazer parte da geração futura, que é um projeto que leva 33 jovens de todo o brasil para passarem 15 dias no Rio de Janeiro em oficinas no canal futura. É gigantesco porque nós crescemos muito no contato com outras pessoas e também pela aprendizagem que o futura nos proporciona. E eu voltei em 2017 com muito mais foco do que eu queria e comecei a me organizar pra fazer minhas produções audiovisuais, e a primeira delas foi o Transforma, que fala de pessoas trans na educação. Hoje eu olho para trás, olho para o Transforma, que foi um trabalho feito antes de eu me identificar como pessoa trans, e vejo que as minhas primeiras transições não aconteceram no meu corpo, nem com minha família. A minha primeira transição aconteceu no meu trabalho, por um interesse que eu não sabia de onde vinha de fazer trabalhos sobre pessoas trans. E quando eu comecei a fazer esse trabalho e comecei a ouvir as histórias, eu me toquei que eu passava pelas mesmas coisas que aquelas pessoas passavam, e eu me toquei que eu era uma pessoa trans, e isso, assim, é um murro na cara, né, porque a pessoa descobrir que é uma pessoa trans e se aceitar e levar isso pro mundo é também dizer que daqui pra frente você vai sofrer uma série de violências.

Eu não aceitei minha transição no início de 2017 de boas, não foi fácil, de forma alguma.

Apenas no final de 2018 que eu comecei a transitar de forma a mostrar para o mundo como eu era, mas antes disso eu comecei a fazer outros documentários como “bixa presa”, “empretecer” que fala sobre mulheres pretas que empreendem no mercado da moda, fiz “Mandala”, sobre permacultura, veganismo e o impacto do homem no meio ambiente, tenho o “Escola África” que fala sobre mulheres negras na educação e fiz também o documentário  “Mulheres” no qual esse foi lá na Ufersa. Fora esses, eu estava também caminhando na minha faculdade, terminei no finalzinho de 2018, e em 2019 foi o ano que eu estava trabalhando em alguns projetos, como uma série  para o canal futura, que é o Biologando. E no meio disso participei de uma seleção da rede globo no profissão repórter e isso abriu muitas portas pra mim. No final do ano eles me chamaram para substituir um editor e eu passei 3 meses trabalhando no profissão repórter em São Paulo. 

Até o início de 2020 eu ainda não tinha iniciado a minha transição hormonal e no meio dessa loucura que era estar em São Paulo, um mundo e um trabalho totalmente novo, eu decidi começar minha terapia hormonal, e foi um divisor de águas. 

Eu comecei a olhar o mundo de outro modo porque meu corpo estava mudando, eu tava começando a ver como eu queria que ele fosse, e o mundo tava me olhando de outra forma, porque as pessoas olharam para mim e não entendiam o que eu “era”, porque algumas feições minhas ficaram tidas como femininas, mas eu tinha alguns traços que para algumas pessoas eram masculinos, como ombros largos. Eu vestia roupas femininas né, e é louco, porque você percebe que o mundo para de te olhar como um homem branco e passa a te olhar como travesti, e são tratamentos muito diferentes. Isso tá afetando muito com a forma que eu olho para o mundo, porque isso mexe muito sobre como minha família tá reagindo comigo, isso mexe muito sobre como isso tá afetando meu trabalho, sobre eu me externalizar como pessoa trans, meu afeto, os meus relacionamentos, tudo, né. 

Atualmente na pandemia estava muito complicado psicologicamente, e profissionalmente também, e eu retornei pra casa da minha mãe, e agora eu estou em Russas no interior do Ceará, na zona rural, até que os próximos capítulos da minha vida possam acontecer.

Tem uma pessoa que me inspira muito e infelizmente eu não tive a oportunidade de conhecer, que é a Leilane, ela foi a segunda doutora do Brasil, uma travesti, que lutou muito pra estar na educação. E eu compreendo hoje em dia o caminho que ela percorreu sendo pioneira em muitos lugares. Leiliane fala que lutar é um imperativo na vida das pessoas trans: ou você luta ou você morre, e às vezes lutando você morre. 

Não nos dão outra opção. Eu não acho que eu tenha a opção de me esconder ou de não lutar, essa opção não foi colocada pra mim.  Todos os dias as pessoas estão me olhando e não conseguem enxergar meu corpo, e o de outras meninas. 

Eu sou comunicadora, e de alguma forma eu tento dar minha comunicação para esclarecer pessoas que não sabem sobre a vivência trans. Eu acredito que a informação transforma, e quando as pessoas se aproximam e se conhecem não reduz só a violência com o meu corpo, mas quando elas tiverem perto de outras pessoas trans, essa violência e esse estranhamento que às vezes tá no olhar, tá na palavra, tá até na violência física, que ela possa diminuir. 

Igualdade de gênero eu não sei se meus netos estarão vivos para ver isso acontecer, sabe? É um sonho! De forma alguma a gente deve parar de lutar, porque existem tantas lutas pra gente chegar a essa realidade, tantas populações invisibilizadas, e eu falo de populações indígenas, falo de racismo, transfobia, lgbtfobia e tudo isso hierarquiza a gente, me coloca em uma posição e coloca outras pessoas em outras posições, e essas pessoas teriam que abrir mão desses privilégios e elas não abrem, tudo que a gente conquista é com muita luta. Então como a gente pode alcançar a igualdade de gênero? 

Sinceramente eu não sei essa resposta que vale um milhão de reais, mas eu sei que a gente não pode parar de lutar. Leilane foi a primeira a entrar na faculdade e fazer doutorado, assim como Luma Andrade foi a primeira no Brasil também a ter um doutorado, e hoje em dia, apesar de ainda sermos a primeira em muitos lugares, eu sei que estou aqui porque Leiliane e Luma existiram e existem. Não sei como que a gente vai alcançar igualdade de gênero, mas eu sei que precisamos continuar lutando para que as outras pessoas possam existir em espaços que eu não consigo, sabe? Que elas possam existir e atuar em lugares que hoje eu nem sonho, mas que possam ser possíveis para elas.

Fui a primeira pessoa trans a trabalhar no jornalismo da globo, e eu nem tinha emprego fixo, estava substituindo alguém. E eu acho isso gigantesco, eu acho que toda vez que uma travesti, uma negra, uma mulher, consegue ser a primeira em algum lugar isso é revolucionário, é uma estrutura que tá mudando, e que bom né eu espero ser a primeira em outras coisas, mas espero chegar em lugares em que eu não seja a primeira,  que eu possa ser a terceira, quarta, quinta, décima, e já tenha outras manas ocupando este espaço, eu não quero ser um “bixo” chegando nos lugares, quero ser uma pessoa comum, aos olhos das pessoas e que possam me olhar como uma pessoa comum.

A luta que nós pessoas trans estamos lutando agora é pra que a gente possa comer, possa ter onde deitar e dormir, é para que a gente possa viver. E eu sempre falo assim: se você acorda de manhã, e tem um prato de comida pra tomar café da manhã, isso já é gigantesco pra quem acorda de manhã e não tem o que comer, sabe? 

As possibilidades no mundo que se abrem pra você que pode tomar café da manhã, são totalmente diferentes  das possibilidades de outras pessoas que não tem. Eu acho assim, quando você luta para que mulheres trans e travestis estejam vivas e estejam comendo, é uma luta de empoderamento feminino, lutar para que uma mulher esteja viva é uma luta gigantesca, e eu acho que essas são as nossas lutas. 

Eu não faço a mínima ideia se eu vou ter 1 ou 20 anos a mais de vida, e viver olhando pra morte é uma realidade pra gente. Mas eu ficando viva, primeiro eu quero ter a oportunidade de impactar a vida de outras meninas trans, e de forma grandiosa. No sentido de tornar a vivência de uma pessoa trans mais visível, agradável, confortável no mundo. Fazer com que meu trabalho chegue a outras fronteiras, outros lugares, ser reconhecida como produtora audiovisual trans e com referência  de produção audiovisual trans, e que eu possa ser reconhecida como qualquer homem branco em qualquer lugar, ganhando premiação. É muito comum a gente ver pessoas negras sendo boicotadas em premiações porque são negras, e nós pessoa trans nem chegamos no ponto de boicote assim, mas quando eu chegar eu quero ser reconhecida como pessoa trans, que olhem pra mim e  pra pessoas trans e digam “nossa, elas são capazes, por mais que nós sempre desmereceu o trabalho delas, elas são capazes”, esse é meu sonho.

Tem uma frase super nova que eu escutei esses dias e zerou muitas das minhas discussões, que é sobre lugar de fala: “nada pra nós sem nós”. Se nós não estamos na luta, ela não é para nós. A gente precisa incluir outras pessoas, inclusive na luta delas. 

Que a luta exista e que as pessoa nos inclua, e que a gente tenha espaço pelo menos para lutar.

Material audiovisual produzido por Elli Cafre

Bixa presa

Empretecer

Mandala

Documentário “Mulheres”


Confira a história de Mikaelly na página 2

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