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Blog, Gênero “Não sei se sou Bi ou se sou Pan”

8 de dezembro de 2020

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Texto de Danielle Amaral e Daniella Vieira


“Não sei se sou Bi ou se sou Pan”

Há alguns dias atrás eu me deparei com essa frase no Twitter e ela me chamou atenção por se tratar de uma coisa tão comum como é o processo de descoberta, autoconhecimento e questionamento da própria sexualidade, mas que às vezes acaba trazendo muita confusão e dor de cabeça pela pressão que é colocada por nós mesmes e pelos outres em nos nomear e definir.

A maioria de nós nasceu e foi criado em uma sociedade na qual ser hétero é a norma, e que os apontamentos acerca de outras orientações sexuais (que antigamente nem eram chamadas assim), sempre eram feitos de modo depreciativo e violento. Assim, pensar sobre o assunto, se questionar e tentar se entender fora desse padrão que foi estabelecido às vezes acaba sendo muito difícil, tanto pra se aceitar/reconhecer quanto pra se compreender.

Como não fomos criados em um mundo em que essas informações nos fossem passadas com tranquilidade, entender o que cada letrinha do LGBTAQIAP+ representa nem sempre é uma tarefa fácil. E então surgem as dúvidas: mas o que danado eu sou? eu sou hétero? sou bi? sou pan? sou lésbica?

Não existe manual pra isso, então a gente não veio aqui te passar uma receita do bolo da autodescoberta da orientação sexual. Mas vamos tentar acalmar esse seu coraçãozinho nesse processo te mostrando que tá tudo bem e que você não tá sozinhe.

Primeiro de tudo, tá tudo bem ter dúvidas, orientação sexual não é uma fórmula de matemática. Você não precisa saber que ? é igual a 3.14159…, ou que x é igual a – b ± ?? / 2·a pra beijar ou pra se apaixonar por alguém. E eu levanto as mãos pro céu por isso, porque se fosse mesmo necessário… vixe!

“Há, mas fulaninhe sabe desde os 14 anos que é gay, e sicraninhe nunca precisou beijar nenhum cara pra saber que era lésbica.”

Te acalma que cada um tem seu tempo! Você é uma sementinha única, e não precisa encarar a plantinha alheia pra se comparar, que isso só vai trazer frustração. E acredita em mim, tem muita gente passando pelo mesmo que você nesse exato momento.

Se descobrir nesse caso é um processo contínuo e muitas vezes existe mais de uma revelação. E o que eu quero dizer com isso? Perceber que você não se encaixa no padrão hetero cis já é uma baita descoberta, mas acaba te abrindo pra esse mundo de possibilidades que às vezes acaba sendo um pouquinho (lê-se muito) confuso. E é aí que mora a melhor parte! Preparades? Você não é obrigade a tomar uma decisão pra vida toda! Aqui a gente não trabalha com a pressão de ensino médio em que você no auge dos seus 16/17/18 anos tem que decidir “o que você quer ser quando você crescer”, e nem é bom que isso seja feito (cuida da tua saúde mental, plantinha, teus divertidamente agradecem!). Se você, por exemplo, se identificar como lésbica agora, mas depois de um tempo perceber que outra orientação sexual se encaixa melhor com o que você é, não tem problema, cê pode mudar, sua história e sua identidade continuam sendo válidas. Segundo uma amiga minha, existem várias saídas do armário.

Agora, voltando ao caso que me levou a fazer essa reflexão “Não sei se sou Bi ou se sou Pan”, e aproveitando que hoje é o dia da pansexualidade (ieiiiii!!) vou aproveitar o momento pra falar sobre um termo massa que eu conheci a pouco tempo, mas já considero pacas: a monodissidência.

Um termo brasileirissimo que foi criado pra “abranger os movimentos de busca de direitos de pessoas que não se reconhecem nem como hétero nem como homo, ou seja, que não são monossexuais ou monoromânticos e intencionalmente ou não acabam divergindo das vivências da monossexualidade”. Assim, a monossexualidade é um padrão que bis e pansexesuais (assim como poli, queer, aro, ace, etc.) quebram dentro do movimento LGBTQIAP+.

Se entender monodissidente (ou seja, se atrair romântica ou sexualmente por pessoas de diferentes identidades de gênero) já é afunilar a tua revelação, mas aí cê pode cair nessa de pansexualidade ou bissexualidade. Então xeu começar explicando um pouco.

Foto de Toni Reed no Unsplash

O que é Pansexualidade?

Vamos lá, tá ligade no P de LGBTQIAP+? Então, esse P é de Pansexualidade. Isso já dá um spoiler do termo, afinal se tá na sigla significa que tem a ver com sexualidade ou identidade de gênero. 

“Mas então, Dani, me conta logo o que é!”

Pansexual é alguém capaz de sentir atração física, emocional ou afetiva por qualquer sexo ou gênero, incluindo quem se considera não-binárie. As pessoas que se identificam como pansexuais são, digamos que, “cegas” ao gênero, elas simplesmente gostam de pessoas e nada mais.

E agora, deu pra entender? 

“Tá, entendi… mas ainda tô um pouco perdide, tipo, essa também não seria a definição de bissexualidade??”

Tá, vamo lá, essa é uma pergunta que causa muita dor de cabeça, mas qual a diferença entre uma pessoa pansexual e uma bissexual?? 

Aqui existem muitas divergências de opinião, e muita briga também. Algumas pessoas consideram que a bissexualidade abarcaria a atração apenas pelos gêneros binários cis (ou seja, mulher cis e homem cis), excluindo assim pessoas não-bináries, trans e travestis, enquanto que a pansexualidade englobaria a atração por todos esses gêneros. Esse pensamento vem sendo contra argumentado pelas pessoas bis que dizem que a bissexualidade é a atração romântica e/ou sexual por dois ou mais gêneros, ou seja, você pode se atrair por dois ou por todos os gêneros (se quiser saber um pouquinho mais sobre isso, dá uma olhada no Manifesto Bissexual).

Outras pessoas acabam usando o termo bi como guarda-chuva pra falar sobre monodissidência, ou seja, considerando que as duas terminologias têm o mesmo significado e que pela bissexualidade ser mais “conhecida” essa poderia englobar a pansexualidade, assim como a polissexualidade. Esse tipo de estratégia acaba trazendo um apagamento pra comunidade e às lutas pan.

Por último, uma outra diferenciação muito recorrente é em relação à história das duas terminologias. O movimento bi surgiu antes que o pan, lá no início do século XX, com o objetivo de quebrar a narrativa de dualismo que existia trazendo a representação de “pessoas que se atraiam por todos os gêneros”. Enquanto que a pansexualidade nasceu lá pelos anos 90, muito ligada à questão de transfobia dentro do movimento LGBTQIAP+, pensando na atração por pessoas não-bináries, agênero, trans e etc, que muitas vezes não se viam englobadas nas outras orientações sexuais (aqui se fazia uma forte crítica ao movimento bi, que pelo nome ligava-se ao binarismo).

Ufa! Viu como é complicado? Então, no fim você se define como se sentir mais confortável. Assim como a sua decisão não é definitiva, o significado do termo e tudo que ele abrange também não é. A gente tem que lembrar que tanto a pansexualidade, quanto a bissexualidade (assim como todas as outras) são compostas por pessoas, e essas pessoas são diferentes e tão em constante transformação, então nada mais justo do que essas ideias evoluírem com elas, né?

Ah, e já que tamo no assunto, vou aproveitar pra trazer um mito que muita gente ainda acredita: É verdade que pessoas pensexuais sentem atração por objetos, crianças e animais?? 

Não! Essa é uma crença equivocada, um mito disseminado na intenção de “demonizar” e invalidar essa orientação sexual.

Agora que a gente já conversou um pouco, vamos conhecer alguns famosos que são pansexuais??

Bianca Andrade 

Reynaldo Gianecchini 

Preta Gil 

Bella Thorne 

Cara Delevigne 

Miley Cyrus 

Sia 

Janelle Monáe

E é isso gente, eu fico por aqui. Mas e aí, se descobriu? Mas sem pressão viu? 😉

Foto de Yoav Hornung no Unsplash

Referências

AGUIAR, Dríade. Mitos sobre Pansexualidade!. Mídia Ninja, 10 de dez. de 2019. Disponível em: <https://midianinja.org/driadeaguiar1/mitos-sobre-pansexualidade/>. Acesso em: 30 de nov. de 2020.

COSTA, Amanda et al. Orgulho Define!. Engajamundo, 26 de jun. de 2020. Disponível em: <https://engajamundo.org/2020/06/26/orgulho-define/>. Acesso em: 27 de nov. de 2020.

FILHO, Ká. Guia básico do movimento pansexual. Bi-Sides, 05 de ago. Disponível em: <https://www.bisides.com/post/guia-b%C3%A1sico-do-movimento-pansexual>. Acesso em: 02 de dez. de 2020.

FONTES, Kaique; FILHO, Ká. As diferenças entre o ativismo bi e pan. Bi-Sides, 26 de ago. Disponível em: <.https://www.bisides.com/post/as-diferen%C3%A7as-entre-ativismo-bi-e-pan>. Acesso em: 02 de dez. de 2020.

MIRANDA, Zoe “Zero”. Debater monodissidência não é fácil. Medium, 03 de jan. de 2018. Disponível em: <https://medium.com/@zeroper97/debater-monodissid%C3%AAncia-n%C3%A3o-%C3%A9-f%C3%A1cil-a78c5e3ebd5e>. Acesso em: 03 de dez. de 2020.

PANSEXUAIS, Vale dos (Vale dos Pansexuais). Bissexualidade e pansexualidade: Qual a diferença real entre as duas?. 15 de out. de 2020. Instagram: Valedospans. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/CGYFR3RHaV0/>. Acesso em: 13 de nov. de 2020.
OLIVEIRA, Jussara R. Bi, Pan, Poli? Aro, Ace? Desafios na construção de um movimento monodissidente. Medium, 03 de jul. de 2019. Disponível em: <https://medium.com/nerd-treteira-ativista-e-academica/bi-pan-poli-aro-ace-desafios-na-constru%C3%A7%C3%A3o-de-um-movimento-monodissidente-50bd0898a105>. Acesso em: 03 de dez. de 2020.


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