Blog, Gênero ENTREVISTA COLETIVA: INICIATIVAS DE INSERÇÃO DE MULHERES NO MERCADO DE TRABALHO E INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA

6 de dezembro de 2020

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Texto de Gabriela S. Müller e Joyce Iorrane

Entrevista feita por Suelen Flores dos Santos


Finanças e mercado de trabalho são temas importantes ao falar de violência contra a mulher. Sabemos que as mulheres ganham, em média, 20,5% menos que homens (IBGE, 2019) e que essa diferença se amplifica quando a mulher em questão é negra, indígena, periférica ou LBT+. Pensando nessas disparidades e nas consequentes violências, a campanha Raízes traz aqui 2 iniciativas puxadas por mulheres para caminhar em direção à reversão deste quadro de desvalorização, dependência financeira, precarização e violências.

A forma como vemos o mundo, a experiência que temos dentro da nossa realidade social e, não menos importante, a forma como este mundo nos vê é bem determinante para que a gente escolha. E como isso pode se relacionar com violência de gênero e com a realidade das mulheres no nosso país? 

Para responder isso, precisamos olhar para os primeiros dias da nossa vida, quando ganhamos os primeiros brinquedos. Os brinquedos que as meninas ganham são muitas vezes voltados para a realidade do lar, como panelinha, as bonecas, casinhas, enquanto que os brinquedos que os meninos ganham se voltam para a realidade totalmente distintas, como um avião, carro, soldado, etc. 

Então… com que realidade e perspectiva do mundo as mulheres chegam à vida adulta?

É importante a gente pensar sobre isso até mesmo para falar sobre a questão da liberdade feminina: será que toda mulher que trabalha é realmente livre? Qual o lugar que as mulheres ocupam no mercado de trabalho e quantas oportunidades elas têm? Quais são os nossos preconceitos enraizados em relação ao trabalho feminino? bell hooks (em letras minúsculas mesmo, por escolha da autora) é bem sensata quando diz que para a mulher ser realmente livre, não basta apenas ter um emprego, ela precisa ter seus direitos trabalhistas respeitados, ter igualdade de salário e, o mais importante, conseguir ser autossuficiente financeiramente.

Podemos, então, voltar a nos perguntar: onde estão as mulheres no mercado de trabalho? Aliás, como essas mulheres podem aprender de maneira a beneficiar outras mulheres a movimentar a nossa economia? 

Sabemos que cerca de 95% das mulheres trans estão na informalidade (ANTRA, 2019), que a dependência financeira é um dos principais motivos que levam mulheres a não denunciarem violências domésticas, que os altos índices de desemprego afetam diferentes grupos sociais de maneira distinta, sendo jovens, mulheres e pessoas sem ensino superior os que mais sofrem (IBGE, 2017), entre outros fatores que escancaram a mudança estrutural que deve acontecer na sociedade.

Mas e aí, minha gente? Vamos conhecer as nossas empreendedoras locais, incentivar o comércio de outras manas e, novamente citando bell hooks, vamos valorizar o poder da nossa moeda comprante para lutar por aquilo que a gente acredita?

A seguir, estão transcritas as entrevistas com Graziele Gonçalves, da Mundo Mais Limpo, e Alawero Meynako, artesã, falando sobre suas iniciativas comunitárias e individuais, suas inspirações, os impactos desses projetos e os efeitos da pandemia do novo coronavírus em seu contexto.

Entrevista com Graziele Gonçalves da Mundo Mais Limpo

A Cooperativa de Trabalho Mundo + Limpo atua há 10 anos em São Leopoldo tendo por objetivos principais: gerar renda sob os princípios da Economia Solidaria, ser um espaço de empoderamento e protagonismo feminino e cuidar do meio ambiente

“Meu nome é Graziele Gonçalves e moro em Sapucaia do Sul [Rio Grande do Sul], mas sou de São Leopoldo [Rio Grande do Sul]. Faço parte da Cooperativa Mundo Mais Limpo que surgiu através de uma escola aberta, onde minha mãe fazia comida (…) para pessoas necessitadas, carentes. Então ali eu ia ajudar e surgiu a ideia de fazer alguma coisa pra ter uma renda no fim do mês. Aí a gente tinha várias opções, na verdade, de artesanato, etc, para ganhar dinheiro. Então a gente pensou no óleo: tivemos a ideia de recolher o óleo e fazer sabão. Hoje (…) a gente fica localizada na Padre Reus [bairro de São Leopoldo, RS] (…), mas nossa cooperativa teve altos e baixos.

Hoje, graças a deus, ta dando certo nossa ideia, mas levamos muitos anos pra seguir o que ta acontecendo agora, que são coisas boas. A pandemia em si não nos afetou. Graças a deus, deu muita venda. Tivemos encomendas grandes, pra lugares que foi doado sacolas básicas pras famílias carentes. No caso, tivemos uma renda muito boa na pandemia. E hoje nós produzimos produtos de limpeza ecológicos feitos do óleo de cozinha. Sim, aquele óleo que tu joga fora, ou na pia, que não dá pra usar mais. A gente faz sabão em barra, limpeza pesada e estamos tentando acertar agora o detergente. Se deus quiser vai dar certo. E fazemos velas também, com óleo de cozinha, muito bonitas, personalizadas e com cheiro também. 

Sobre o meu serviço (…) na Mundo mais Limpo, (…) pra mim é muito bom. Claro, (…) a gente passou por muitos processos até dar certo né, então agora ta sendo ótimo, perfeito. 

Somos mulheres. Tem todo tipo de mulheres, de várias origens. São mulheres que não tem carteira assinada. Eu, no momento, voltei pra cooperativa, porque eu saí várias vezes porque precisava trabalhar de carteira assinada pra ajudar a pagar as contas de casa. Meu último emprego eu perdi por causa da pandemia, (…) e agora eu to ali na cooperativa, porque ta tendo uma renda então to conseguindo pagar minhas contas. Tem a Mayara, que é bem nova, a Maca, a Carol e a Cristina que são de fora [Uruguai e Chile] e a Regina, uma senhora que mora sozinha e trabalha ali com a gente, faz as velas. Tem a Cris, do Uruguai, ela que incentivou bastante eu a participar desse grupo e começou através dela, quando eu conheci ela. A Carol é do Chile e veio como missionária então ela participou do grupo e ficou. Tem a Leonora, mas ta em casa agora por causa da diabetes, não pode trabalhar. (…) Tem a Andreia também que é casada, tem 3 filhos, e não tinha emprego, então através da tenda [espaço onde elas realizam ações voluntárias para ajudar crianças com comida, estuda e laze] a gente conheceu a Andreia, que tava desempregada. E tem eu. E é isso, somos nós as integrantes do grupo.

O recado que eu dou pra essa juventude de hoje: se quer crescer, ter alguma renda ou capacitação, tem que seguir mesmo não dando certo, mesmo tendo obstáculos. Porque às vezes dá e às vezes não dá, tem que ir atrás. Quer realmente fazer, faz, segue e continua, né? Porque a juventude de hoje desiste muito fácil, então se tá difícil, ela desiste. Aí no caso esse é o incentivo que eu dou pra juventude e pras mulheres. As mulheres que estão em casa, que não tem uma renda, pensa num artesanato, numa venda, pensa em algo que vai satisfazer o que ela precisa (…). Geralmente não tem um trabalho fixo, um serviço de carteira assinada, não importa. A gente começa do pequeno, (…) aí com o tempo a gente vai conseguindo portas e pessoas pra nos ajudarem. Hoje [por exemplo] a Mundo mais Limpo é uma cooperativa e temos 9 integrantes e abre de segunda a sexta, das 9h às 17h30, antes era só uma ou duas vezes na semana. É isso, faço parte dele. É renda e a questão do meio ambiente. Além de ter uma renda no fim do mês a gente pensa no meio ambiente, tirando todo esse óleo das casas, do pessoal, não polui a nossa água que a gente bebe. Porque 1 litro (..) pode ser pouco óleo, mas contamina milhões de litros de água. Então é isso, também é a questão do meio ambiente.

Conheça mais do Mundo mais Limpo através do site ou entre em contato com a Grazi através do e-mail grazielere99@gmail.com!


Entrevista com Alawero Meynako

Comprar a arte indígena também é reconhecer e apoiar a luta indígena.

“Bom, eu sou do Alto Xingú, sou da etnia Mehinako, mas faço parte de duas etnias, porque minha mãe é Yawalapiti e meu pai é Mehinako. Eu atualmente moro em Goiânia, (…) faço faculdade de Ciências Sociais aqui na Universidade Federal de Goiás, UFG, e (…) eu faço pulseiras, faço colares de miçangas e quando dá, na verdade, porque é tanta coisa da faculdade que acaba que a gente tem pouco tempo pra estudar e pra fazer a minha arte. E também eu faço esteira com talo de buriti com bordado de algodão e cestos. No meu caso, é só pra me manter na cidade durante a faculdade. Eu pretendo trabalhar com outra coisa. Mas assim, se der certo, eu talvez continue trabalhando com isso, sabe? Porque eu mesma que faço. Tem gente que revende. No meu caso não, eu mesma que faço as minhas artes. E eu levo tempo pra fazer. Aí às vezes não dá tempo, porque tem muita coisa. Mas eu queria montar uma lojinha, pra começar a vender e mostrar nossa arte indígena, sabe? Para os não indígenas conhecerem e valorizar a arte indígena. Comprar a arte indígena também é reconhecer e apoiar a luta indígena.

Desde pequena eu faço as artes. Ah, esqueci de mencionar que também faço rede, de fibra de buriti. Lá na aldeia a gente faz muito artesanato, cestos, esteiras, porque a gente usa no nosso dia-a-dia. Mas quando eu vim pra cá [para Goiânia, GO] eu deixei um pouco de lado, porque eu comecei a só estudar mesmo, mas assim, eu já trabalhei em outras coisas na cidade. Trabalhar pros outros. Mas teve um momento que eu parei, eu falei não dá, não conseguia estudar e trabalhar. Será que eu conseguiria se vendesse minhas artes? (…) Foi muito legal começar. Claro, no começo é sempre muito difícil, porque você não sabe por onde começar. Eu (…) senti que eu realmente comecei mais no escuro, mas quando eu comecei a vender, era mais como uma exposição, aí eu vi que eu levava jeito sim pra venda. (…) E continuei, porque eu mesma que faço minhas artes, aí demora um pouquinho mais e às vezes isso desanima um pouquinho porque eu fico muito cansada as vezes de tanto fazer

Sim [sobre a pandemia afetar as vendas]. Antes eu viajava, levava minhas artes pra outros lugares, pra exposições, e vendia. Mas na pandemia, ficamos em isolamento. No início do ano, eu consegui vender, sabe? Porque eu já tava com um monte de encomenda, aí consegui. Mas a partir de julho, as coisas começaram a ficar mais difícil. Antes eu nem vendia pela internet, aí eu comecei a vender pelo meu instagram pessoal, porque eu não tenho lojinha no instagram não (…). Eu comecei a divulgar no meu instagram e apareceram umas pessoas que já tinham uma lojinha lá, mas era mais pra revender. Fiz alguns descontos [no começo] pra conseguir algum trocadinho, mas agora eu comecei a divulgar mais e ta indo bem, ta indo bem! Agora eu to a procura de algum projeto de capacitação aqui na região.”

Acompanhe o trabalho da Alawero aqui


Apesar da mudança para reverter os problemas de gênero no mercado de trabalho e das violências que resultam da desvalorização do trabalho das mulheres ou da impossibilidade das mesmas trabalharem, estas cooperativas e iniciativas individuais ou coletivas possibilitam que mais mulheres entendam a sua posição na sociedade e reinventem a sua realidade, empoderando-se e conscientizando gerações inteiras.


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