Blog, Gênero, GTs Setembro amarelo e a triste realidade da saúde mental de LGBTs+

30 de setembro de 2020

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Autores: Luiz Fernando Prado de Miranda e Júlio César Pereira Filho

O mês de setembro, desde 2014, tornou-se conhecido pela campanha do “Setembro Amarelo”, cujo principal objetivo é promover a prevenção ao suicídio. O suicídio é uma consequência final de uma série de fenômenos psicossociais que demandam esforços conjuntos e coordenados para que possam ser superados. 

Dado esse caráter multifacetado da temática em foco neste mês, é fundamental lembrarmos que diferentes condicionalidades e contextos sociais influenciam nessa realidade tornando alguns grupos mais vulneráveis aos prejuízos à saúde mental de seus indivíduos. Infelizmente, as características de gênero e sexualidade desviantes da cisheteronormatividade figuram entre esses fatores sociais que expõe os indivíduos a uma maior vulnerabilidade, inclusive, às doenças mentais e práticas de suicídio. A título de exemplo, temos o caso da comunidade bissexual que rotineiramente é retratada como uma condição de “ confusão “ do ser humano, essa visão desrespeitosa é alimentada também por séries e filmes que retratam falas colocando a bissexualidade enquanto estágio de transição entre a homossexualidade e a heterossexualidade, além da colocação de personagens extremamente esteriotipados.  

Apenas no ano de 2019, 32 mortes violentas de pessoas  LGBT+ no Brasil foram tipificadas como suicídio, segundo o Grupo Gay da Bahia (2020). Apesar do trabalho fundamental e de riquíssimo rigor metodológico realizado pelo Grupo, a carência de dados sobre a população LGBT+ permite-nos afirmar que, na realidade, esses números são significativamente maiores e essa situação é ainda mais preocupante. Destaca-se também que dados coletados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) já indicam que o número de assassinatos de transexuais e travestis no Brasil até 31 de agosto já é maior do que o total do ano anterior inteiro, mesmo com a vigência de uma quarentena no país. Assim, é possível que, após dois anos de redução do número de mortes violentas de LGBTs+ no Brasil,  tenhamos um aumento em 2020 dessas mortes, incluindo aquelas tificadas como suicídio. 

Suicídio de LGBT+ no Brasil, em  2019, por orientação sexual.

Fonte: Relatório do Grupo Gay da Bahia, 2020

Haas e Lane (2015) apontaram, baseados em pesquisas anteriores, “que homens gays e bissexuais tinham quatro vezes mais probabilidade de relatar tentativas de suicídio ao longo da vida do que homens heterossexuais, já as mulheres lésbicas e bissexuais tinham duas vezes mais probalildade, ??em relação às mulheres heterossexuais” (citação traduzida do texto original). O estudo apontou também que “jovens LGB relataram tentativas de suicídio ao longo da vida que correspondem a três vezes a taxa de jovens heterossexuais e eram quatro vezes mais propensos a relatar tentativas clinicamente graves” (citação traduzida do texto original). Com relação às pessoas trans, 25-43% de entrevistados transgêneros de diferentes pesquisas anteriores relataram tentativas de suicídio ao longo da vida, em oposição aos menos de 5% dos adultos americanos em geral. Dessa forma, percebemos o quão alarmante é a situação da comunidade LGBT+ vitimada por danos na saúde mental que são cada vez mais alimentados por condutas sociais desprovidas de empatia.

O número de suicídios e de tentativas de suicídio deixam nítido que há um problema grande em relação à saúde mental das pessoas LGBT+, mas essa é apenas a ponta do iceberg. O estudo realizado por Remy e demais autores em 2017 é uma das poucas pesquisas brasileiras que abordam a saúde mental de pessoas LGBT+. Os autores que estudaram “sintomas de ansiedade e depressão em usuários de ecstasy e LSD de minorias sexuais brasileiras” identificaram uma prevalência de sintomas de depressão e ansiedade na amostra não heteressexual da pesquisa, mesmo havendo similaridade no uso de drogas, com exceção da cocaína, entre os grupos.  Os autores citam ainda outras inúmeras referências internacionais que identificaram correlação entre minorizados sexualmente e sintomas psiquiátricos.

Todos esses estudos comprovam algo crítico, que não é nem um pouco distante da realidade de pessoas LGBT+ e tem se agravado durante a pandemia da COVID-19. De acordo com pesquisa realizada, este ano, pelo coletivo #VoteLGBT com mais 9 mil respondentes, para 42,7% deles, a saúde mental foi a maior dificuldade enfrentada no isolamento social/quarentena. Esse problema torna-se ainda mais severo na faixa etária entre 15 e 24 anos, na qual 1 em cada 2 respondentes afirmaram que a saúde mental era sua maior dificuldade na pandemia. 

Problemas complexos exigem soluções complexas e, por isso, não dá pra esperar que esses números apresentados aqui se revertam de um dia para outro. Como a LGBTfobia se impõe de forma estrutural na vida dos indivíduos a superação desse problema também demanda iniciativas sistêmicas, que atuem na educação, no campo político, na segurança e em inúmeras outras frentes, sobretudo na saúde. 

Fonte: Pesquisa LGBT+ na pandemia, junho de 2020

Nesse sentido, iniciativas que visam a alterar esse cenário merecem ser reconhecidas e divulgadas, como a plataforma “Acolhe LGBT+”. Uma ação incrível, gerenciada pela All Out e TODXS, e desenvolvida com o apoio do Nossas, que conecta LGBTs+ que não podem arcar com um acompanhamento psicológico à profissionais dispostos a atendê-los voluntariamente. Não deixem de conferir lá no acolhelgbt.org.

Fonte: Agência de Notícia das Favelas, 2020.

Que iniciativas como essa se multipliquem e que, em breve, ninguém precise ter sua saúde mental lesada por seu gênero ou sexualidade e assim possamos caminhar para uma sociedade mais justa e equânime!  

Referências: 

#VOTELGBT. Diagnóstico LGBT+ na Pandemia. Disponível em: <https://static1.squarespace.com/static/5b310b91af2096e89a5bc1f5/t/5ef78351fb8ae15cc0e0b5a3/1593279420604/%5Bvote+lgbt+%2B+box1824%5D+diagno%CC%81stico+LGBT%2B+na+pandemia_completo.pdf>. Acesso em 21 de set. de 2020.

ALL OUT; TODXS. Acolhe LGBT+. Disponível em: <https://www.acolhelgbt.org/>. Acesso em 21 de set de 2020.

BENEVIDES, Bruna; NOGUEIRA, Sayonara. Boletim nº 04/2020 – 01 de janeiro a 31 de agosto de 2020. Rio de Janeiro: ANTRA, 2020.

HAAS, Ann P.; LANE, Andrew; WORKING GROUP FOR POSTMORTEM IDENTIFICATION OF SO/GI. Collecting sexual orientation and gender identity data in suicide and other violent deaths: A step towards identifying and addressing LGBT mortality disparities. LGBT health, v. 2, n. 1, p. 84-87, 2015.

OLIVEIRA, José Marcelo Domingos de; MOTT, Luiz. Mortes violentas de LGBT+ no Brasil – 2019: Relatório do Grupo Gay da Bahia. Salvador: Editora Grupo Gay da Bahia, 2020.REMY, Lysa S. et al. Anxiety and depression symptoms in Brazilian sexual minority ecstasy and LSD users. Trends in psychiatry and psychotherapy, v. 39, n. 4, p. 239-246, 2017.


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