Blog, Habitat III Recaminhar e se reapropriar da cidade

8 de agosto de 2020

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Alex Silveira (Aracaju/SE), André Baltazar (João Pessoa/PB), Clariana Monteiro (São Paulo/SP), Frances Andrade (Nossa Senhora da Glória/SE), Hérika Pritsch (São Paulo/SP), Landis Petersen (Ijuí/RS)

Caminhar é mais do que um movimento mecânico: é apropriar-se cotidianamente do espaço da cidade.” (Lara Caccia e Priscila Pacheco)

Ei você, que usa seus pés para chegar nos lugares (conta ponto de ônibus e estações de metrô/trem, viu?), para fazer exercício, descobrir a sua ou outras cidades. Hoje viemos falar principalmente com você! Já parou para pensar a importância da mobilidade a pé nos deslocamentos diários? Quando você caminha por aí, como se sente?

No dia 08 de Agosto celebramos mundialmente o Dia do Pedestre. A data, escolhida por ser o dia em que a banda inglesa The Beatles tirou a famosa foto cruzando a Abbey Road em Londres, traz uma relevância muito maior. Ela celebra e evidencia o ato de caminhar, esse que é um meio de transporte não poluente, da natureza humana e que nos traz muitos benefícios, desde a conexão com o nosso entorno até melhorias na saúde. Falar de pedestre é falar de cidades construídas na escala humana e para o encontro. 

Porém, já de longa data que nossos queridos pés não vem sendo tratados muito bem. Apesar dos pedestres estarem como prioritários na Política Nacional de Mobilidade Urbana, a infraestrutura das nossas cidades dizem o contrário. Assim, trazemos aqui uma proposta de discussão e reflexão enquanto juventudes: como queremos que seja o nosso recaminhar pós pandemia e até mesmo o nosso caminhar feito quando necessário durante ela?

A pandemia evidenciou diversos problemas já existentes nas cidades, dentre eles questões relacionadas a mobilidade a pé, como a falta de segurança nas ruas. Como se já não bastasse, por exemplo, a precariedade de iluminação pública em muitos locais, ainda temos que lidar com um menor número de pessoas circulando nas ruas, aumentando a sensação de insegurança e o medo da violência urbana, ainda mais contra grupos que numericamente e historicamente são as vítimas mais recorrentes dessa violência, como as mulheres, a população LGBT+ e a população negra. Melhorar a iluminação pública e melhorar as condições de segurança das ruas, questões que sempre foram necessárias e reivindicadas, tornam-se então medidas mais urgentes para preservar vidas, ainda mais quando já temos um grande problema como a pandemia para lidar.

Necessário também refletir sobre velocidades mais compatíveis com a vida, pois menos veículos na rua não deveriam representar mais riscos para os pedestres, mas na prática motoristas se aproveitam de ruas vazias para correr e avançar sinais. Então, maior segurança no trânsito também é atualmente ainda mais necessária para evitar leitos ocupados e vidas ceifadas, exatamente o que estamos precisando mais do que nunca. Uma forma de melhorar a segurança viária, por exemplo, é redesenhar as ruas, adotando lombadas, rotatórias, entre outros meios de traffic calming. Durante o Maio Amarelo, discutimos esse tema e você pode se aprofundar nessa questão nesse nosso texto.

Considerando o atual contexto, quanto menos precisarmos nos deslocar, menos risco de nos expormos ao vírus, não é mesmo? Então, durante a pandemia, muitas pessoas estão, por exemplo, enfim descobrindo o comércio local. E pensando para além da pandemia, caminhar mais pela vizinhança e usufruir mais dos negócios locais também são formas de conhecermos e integrarmos melhor o nosso entorno, além de movimentar a economia local.

A necessidade de evitar aglomerações no transporte público e grandes deslocamentos para não se expor ao vírus reforçou a importância de termos sempre por perto calçadas bem conservadas e largas que permitam caminharmos de forma mais segura e confortável, que efetivamente garantam acessibilidade para todos, conforme garantido por lei, especialmente para pessoas com mobilidade reduzida, como PCDs, idosos e gestantes. Afinal, todos devemos ser tratados com respeito e dignidade e acessibilidade representa justamente inclusão, segurança, autonomia, conforto, enfim, qualidade de vida para todos. Importante o poder público aproveitar então o atual momento para realizar intervenções temporárias e até permanentes que facilitem e incentivem a locomoção a pé como alternativa segura e viável para desafogar o transporte público e reduzir deslocamentos.

O desenho urbano também pode favorecer a mobilidade a pé. “Caminhar em uma rua com cafés, restaurantes e lojas é muito mais agradável do que em uma rua onde existem grandes edifícios comerciais e estacionamentos para automóveis” (Constanza Martínez Gaete). Quadras inteiras fechadas para as ruas afastam pedestres, assim como as “fachadas cegas”: muros extensos e fachadas sem aberturas como janelas e portas. Enfim, a pouca interação entre os edifícios e seu exterior tornam as ruas mais desconfortáveis, trazem sensação de insegurança para os pedestres. Além disso, esse tipo de quadras e ruas que desfavorecem a interação humana também trazem uma sensação de vazio, pois não agregam em nada a vivência das cidades. E “nossas ruas devem ser não só locais de trânsito, mas também de encontro” (Wans Spiess, Kelly Fernandes e Ana Carolina Nunes).

Importante então repensar a forma como estão sendo construídas nossas cidades e comunidades. Estimular através dos Planos Diretores (instrumentos legais que visam orientar a ocupação do solo do Município) a diversidade de usos do solo num mesmo bairro (residências, comércios, serviços, etc.) e, principalmente, as “fachadas ativas” (que se abrem para a rua, como comércios e serviços no pavimento térreo de prédios residenciais) é por exemplo uma forma de tornar as cidades mais caminháveis, pois além de tornarem as ruas mais movimentadas e agradáveis, reduzem a necessidade de longos deslocamentos.

Outra forma de integrar o caminhante e o caminho e, consequentemente, favorecer a mobilidade a pé é através da presença de árvores pela cidade. Quando falamos em planejamento urbano, algo um tanto complexo, mesmo nós que não entendemos nada de Arquitetura e Urbanismo devemos ter em mente que as áreas verdes são essenciais para os pedestres e habitantes das cidades, sejam eles humanos ou não – afinal, espécies da nossa biodiversidade como pássaros e insetos também fazem parte das nossas cidades!

A arborização urbana traz diversos benefícios como a regulação da temperatura e da umidade local, melhora da qualidade do ar, sombras para os pedestres, retenção da água das chuvas e consequente redução das enchentes, redução da poluição sonora, além de embelezarem esteticamente as ruas e protegerem a biodiversidade local. Tudo isso contribui para melhorar a qualidade de vida de quem caminha e de toda a população.

O coronavírus ataca as vias respiratórias, e o ar poluído então agrava o desenvolvimento da doença e aumenta o risco de mortalidade. Por isso, a despoluição atmosférica através da arborização também contribui para reduzir a lotação dos hospitais – algo essencial, ainda mais na pandemia. Além disso, áreas verdes são comumente destinadas ao lazer e a atividades físicas, sendo então importantes para a saúde física e mental da população. Falar de qualidade do ar também é falar de saúde pública, necessário então maior diálogo entre meio ambiente e saúde para mitigar os problemas ligados a esses dois mundos.

Em um momento no qual o isolamento social é tão necessário para o enfrentamento à pandemia, o contato com a biodiversidade, para além da arborização, pode ser feito de casa ou ao caminhar nas ruas também contemplando aves, por exemplo. O Brasil possui cerca de 20% das espécies de aves conhecidas no planeta, as quais têm um papel fundamental na manutenção ecológica urbana e rural, além de colaborar com a polinização de diversas plantas, dispersam sementes e equilibram a teia alimentar. Prestar atenção na biodiversidade funciona como prática terapêutica, além de ser uma forma de enxergar e sentir-se parte de um mundo de vida, que sempre está aí, porém muitas vezes é ignorado.

O pensamento de que folhas e flores sujam as casas e ruas já é ultrapassado. A juventude vem munida de ciência, vivência e educação ambiental para reivindicar políticas que tenham a natureza como parte essencial na qualidade de vida de todos. É importante se pensar nas cidades como organismos vivos e conciliar o que é tido como progresso com a preservação da vida. Pensar ruas humanizadas significa entender o (re)caminhar com um ato de (re)construção coletiva e (re)apropriação das cidades e comunidades.

Não aguardemos mais o amanhã para resolvermos os problemas de hoje! Não esperemos mais o futuro para aplicarmos os aprendizados do presente! Todas as questões apresentadas sempre estiveram aí, a pandemia apenas as evidenciou e tornou mais urgente a necessidade de resolvê-las. Vamos então nos reapropriar das nossas cidades e comunidades e torná-las mais caminháveis, seguras, inclusivas e sustentáveis. A hora de sermos e cobrarmos solução é agora!

Referências:

  • https://www.archdaily.com.br/br/926247/5-cidades-que-sao-exemplos-de-caminhabilidade
  • https://www.archdaily.com.br/br/756030/7-dicas-para-criar-cidades-para-os-pedestres
  • https://www.archdaily.com.br/br/938086/mobilidade-a-pe-em-tempos-de-pandemia
  • https://sedema.wixsite.com/sedema/arborizaourbana

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