Blog MANIFESTO DAS PRETAS E PRETOS DO ENGAJAMUNDO

7 de junho de 2020

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Vocês conseguem nos ouvir? Nos ouçam! Estão tentando nos interromper!  Combinamos de não ir longe de menos. E eles não estão de acordo com isso. Eles fazem o contrário, eles nos matam.

Desde sempre, nós do Engajamundo fizemos questão de falar como a juventude é parte da solução. Temos nos concentrado em ser propositivos, se especializando em nossas áreas e pensado qual futuro queremos. Mas hoje viemos aqui fazer uma pausa. 

Não adianta pensar no  nosso futuro daqui a 10 anos,  se nossos caminhos serão continuamente interrompidos. Nossos sonhos interrompidos. Nossas vidas interrompidas. Afinal, a estimativa de vida de um jovem negro é de 25 anos, sem nem ao menos o direito de viver toda sua juventude… se você já a chegou nessa idade, parabéns você venceu uma estatística.

Temos tentado salvar esse mundo  e construir o mundo que queremos. Mas por hora, estamos tendo que nos preocupar em salvar… nossa própria vida. Mesmo sabendo que proteger nossa casa e pressionar tomadores de decisão para que respeitem às políticas públicas que pautem a cerca dos principais problemas socioambientais que vivemos, é tentativa de blindar os nossos contra o agravamento da marginalização  e das disparidades sociais, primeiro precisamos nos unir para continuar vivos e defender o projeto de sociedade que queremos.

Enquanto no Brasil, segundo o IBGE, temos uma população negra de 54% e de acordo com o Mapa da Violência a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado – pela mão do Estado ou pela mão invisível dele, quando não atende nossa população com direitos básicos os Estados Unidos, país com uma população preta de menos de 13% conseguiu incendiar as ruas e movimentar estruturas com a indignação popular. O que nos falta para aqui também dizermos finalmente um basta?

A gente tá falando de vidas! Gente que nasce nas favelas, que ri, que sonha, que pega 6 horas diárias de transporte público, que rala e que morre, sem manchete especial nas mídias, ‘ sem identificação’. Assim como George Floyd, nós não conseguimos respirar! Vivos ou mortos, estamos sufocados. 

João Pedro,  14 anos, morreu baleado covardemente pelas costas por policiais quando brincava dentro da sua própria casa no Complexo do Salgueiro no Rio de Janeiro. Seu corpo foi levado sem permissão, pelos policiais em um helicóptero do Estado e o corpo encontrado depois de 17 horas no IML da região.

João Victor, 18 anos,  baleado em um tiroteio na Cidade de Deus  no Rio de Janeiro enquanto ocorria uma distribuição de cestas básicas na comunidade, teve seu corpo levado para o hospital “ sem identificação”. 

Joana Bonifácio, foi arrastada pelo trem na estação Coelho da Rocha, em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. Joana estava a caminho da faculdade quando teve sua vida brutalmente interrompida.  Depois da morte violenta, a família passou a conviver com a absurda culpabilização e criminalização de Joana pela concessionária Supervia e pelo Estado.

Os 12 jovens do Cabula, bairro periférico de Salvador, que em 2015 foram mortos pela polícia com armas de fogo de calibre grosso sem motivo algum, apenas porque o bairro que moravam era “um território diferenciado” segundo o comandante geral da Polícia Militar. 

E não para! Como se não bastasse, essa semana, em Recife, Miguel Otávio, menino de 5 anos, foi deixado sozinho pela patroa de sua mãe no elevador do prédio e  morreu ao cair do 9o andar. 

E quantos mais? Nossos corpos estão vulneráveis. ‘Eles têm pele alva. Nós temos a pele alvo’. Carregamos, todos os dias, o peso da escravidão e de tudo o que ela causou: a desumanização do povo negro, criação de barreiras que nos impedem de cruzar linhas, a morte e o encarceramento em massa dos nossos.

O que falta para a população brasileira se levantar contra o processo genocida  que aniquila a juventude negra em nosso país? Além de posts em redes sociais e declarações antiracistas, que atitudes você está tomando? É hora sim de ir longe demais: com nossas análises, críticas, histórias e posicionamentos. Porque estamos todos sangrando! 

Quantas vezes você tem olhado para as pessoas negras dos seus espaços? Elas realmente estão por aí? O que elas tem falado? O que elas têm sentido? E se não falam, será que esses espaços tem sido seguros  para nossos corpos, opiniões e nossos sentimentos também? Você tem aberto mão de um protagonismo – forjado como meritocrático – para que pessoas negras ocupem todos os poros desses espaços? E quando não pode abrir mão dos privilégios, tem usado deles para levantar outros?

Não ser mais conivente com um Estado que em vez de vida, nos oferece morte. Ser antiracista é dizer não às políticas de encarceramento em massa e ampliação do direito a porte de armas de fogo. É dizer não a uma suposta “guerras às drogas” que mata sob um disfarce de um combate às drogas. É defender a educação de qualidade e dizer sim a políticas de cotas. É não normalizar que os nossos continuem superlotando o sistema carcerário sem que soluções para as raízes dos problemas sejam buscadas.

Chega de em meio a uma pandemia global – que ainda precisamos enfrentar sem ter acesso a saneamento básico, a meios de transportes seguros, a moradias  de qualidade que comportem um distanciamento social, a uma segurança financeira com renda básica emergencial garantida e um sistema de saúde público de qualidade – ainda termos que superar o vírus da violência.

Nós não queremos ter medo de ir e vir, sendo quem somos. E isso não é um pedido! 

PAREM DE NOS MATAR. SE NÃO, QUAL DE NÓS SERÁ PRÓXIMO?

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