Espécies exóticas/ invasoras: prejudiciais ou não?

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20 de maio de 2019

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Quando conhecemos alguma planta ou animal bonito, presencialmente ou por fotografia, queremos tê-lo, assim, muitas pessoas compram plantas ou animais exóticos. No entanto, quando tem que mudar de cidade/casa ou perdem o interesse, soltam na natureza, sem qualquer tipo de checagem. Essa imprudência é perigosa, pois esse fato pode causar a morte do indivíduo, ou o desequilíbrio de uma teia trófica inteira, como aconteceu com o gato doméstico na Ilha de Fernando de Noronha que tem predado diversas espécies de aves e lagartos nativos (18).

O que são as espécies exóticas/invasoras?

As espécies exóticas são aquelas que estão fora da sua área de distribuição natural, ou seja, não são nativas/naturais de um determinado ambiente. independente dos limites políticos de países ou estados (4, 11), pois, caso ocorra essa movimentação entre ecossistemas no mesmo país, ela é considerada exótica, podendo ser invasora, como o caso dos Saguis no Rio de Janeiro (2). As exóticas invasoras são aquelas que causam desequilíbrio ao ambiente ou prejuízo ao ser humano (11).

A introdução pode ocorrer de várias formas (comércio de plantas ornamentais, mudanças climáticas…), mas as movimentações humanas é a principal razão (intencional ou acidental) pois, desde os primórdios, as espécies são transferidas entre ambientes. Quando a introdução de espécies exóticas invasoras ocorre é chamada de poluição biológica. Importante relatar que cerca de 75,5% das espécies invasoras no Brasil foram introduzidas intencionalmente, onde 21,8% é devido ao comércio para ornamentação (6).

No entanto, o fato da espécie ser exótico, não implica necessariamente que ela seja invasora e danosa para o ambiente (4), pois, a maioria dos alimentos utilizados na agricultura e alimentação não são nativos (café, maçã, cana de açúcar, arroz, soja…), e alguns precisam de cuidados especiais (2).

O que as invasoras causam?

As espécies invasoras podem causar diversos prejuízos desequilibrando as teias ecológicas no ambiente (3). Por exemplo, por meio da competição de recursos, gerando escassez de alimento para as nativas, predação de espécies nativas, podendo causar extinção de espécies, além de causar perdas econômicas e malefícios a saúde humana (11, 14, 16). Devido a ausência de inimigos naturais, as espécies invasoras conseguem se multiplicar em massa, assim, obtém vantagens na competição, e de novo, podendo levar a extinção de espécies (11).

Segundo vários autores, as espécies exóticas invasoras são a segunda causa mundial da perca da biodiversidade, atrás apenas da destruição pelo ser humano. De acordo com a ONU, as invasoras já causaram prejuízos de US$ 1,4 trilhão, isso equivale a 5% do PIB global (5). No Brasil, as espécies exóticas estão presentes em 103 unidades de conservação espalhadas por 17 estados (17). Em 2008, realizou um estudo pelo governo Brasileiro, onde calculou as espécies invasoras que afetam a biodiversidade terrestre (sp. 171), a saúde humana (sp. 99), o setor econômico (sp. 92), ambientes marinhos (sp. 66) e as águas continentais (sp. 49) (2).

Como evitar?

A forma mais simples de evitar a introdução de espécies, é prevenindo e controlando a sua entrada (2) e através da educação ambiental. Uma vez que a invasão acontece com sucesso, é difícil remove-la da área invadida, sendo muito custoso. Além disso, durante o combate das invasoras pode haver resultados adversos (3). Alguns casos, como a introdução de predadores exóticos para eliminar uma determinada invasora que estava causando problemas já ocorrem. Mas, em vez de solucionar o problema, a nova introdução causou outro, pois a predadora exótica ignorou a invasora e atacou as espécies nativas mais abundantes (11). Como, por exemplo, o lagarto teiú (Tupinambis merinae) que foi introduzido em Fernando de Noronha para controlar os ratos da ilha. Contudo, o lagarto tem hábito diurno, e os ratos são noturnos, assim, o teiú começou a predar ninhos de aves, causando impactos no meio ambiente (15). Assim, quando for realizar introdução de espécies com esse objetivo, deve-se estudar a biologia dos animais envolvidos e ser cauteloso, pois a situação pode ser piorada.

Espécies exemplos

Há muitas espécies introduzidas que podem causar malefícios ao ser humano e/ou ao ambiente, como o Caramujo africano (Achatina fulica), mosquito aedes (Aedes aegypti), javali (Sus scrofa L.), espatódea (Spathodea campanulata), mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), rã touro (Rana catesbeiana), lebre europeia (Lepus europaeus), peixe leão (Pterois volitans), pinus (Pinus elliotti/Pinus taeda), pombas domésticas (Columba livia), búfalo (Bubalus sp.). Dentre estas, javali, caramujo africano, espatódea e rã touro, estão entre as 100 piores espécies invasoras do planeta pela União internacional para a Conservação da Natureza – IUCN (7).

O impacto por animais no ambiente já é conhecido, no entanto, o perigo por espécies vegetais ainda é pouco divulgado. Há algumas plantas que apresentam toxicidade nas flores e néctar, como a Espatódea (Spathodea campanulata). Esta toxicidade pode causar mortalidade de muitos insetos, especialmente as abelhas nativas Meliponini, devido aos compostos liberados pelas pétalas das flores e néctar serem tóxicos a estes visitantes (1, 9, 10, 12, 13, 19). Logo, o seu plantio deve ser evitado, e há regiões que têm proibido o seu plantio, devido ter ocorrido diminuição de abelhas, impactando a economia de produtores e agricultores, visto que a polinização e a produção de mel, depende diretamente das abelhas.

 

Referências:

  1. Calligaris, I.B. 2001. Toxicidade do néctar e do pólen de Spathodea campanulata (Bignoniaceae) sobre operárias de Apis mellifera (Hymenoptera: Apidae) e Scaptotrigona postica (Hymenoptera: Apidae). Dissertação. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

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  1. Chame, M. Espécies exóticas invasoras que afetam a saúde humana. Ciência e Cultura, v.61, n.1, p.30-34, 2009.
  2. Côrtez, M. Introdução de espécies exóticas no Brasil. Nov. 2017. Disponível em:  https://biologiaparabiologos.com.br/especies-exoticas-no-brasil/.
  3. Freitas, V.P.; Serrano Junior, O. Poluição ambiental por espécies exóticas invasoras. Lusíada. Direito e Ambiente, n.2-3, p.263-285, 2011.
  4. Grandelle, R. Espécies invasoras estão entre as maiores vilãs da biodiversidade. Nov. 2011. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/especies-invasoras-estao-entre-as-maiores-vilas-da-biodiversidade-3004360.
  5. Instituto Hórus. Código de conduta voluntário para produtores, comerciantes e usuários de plantas ornamentais. Disponível em: https://www.institutohorus.org.br/index.php?modulo=pr_
  6. Lowe, S.; Browne, M.; Boudjelas, S.; De Poorter, M. 100 of the World’s Worst Invasive Alien Species A selection from the Global Invasive Species Database. IUCN, 2000. 12p.
  7. Moraes-Alves M.M.B. Fitotoxicidade em Apis mellifera africanizada (Hym.: Apidae) I. Secreção do botão floral e néctar de Spathodea campanulata Beauvois (Bignoniaceae). Biotemas, v.16, n.2, p.89-103, 2003.
  8. Nogueira Neto, P. 1970, A criação de abelhas indígenas sem ferrão (Meliponinae). Ed. Tecnapis, São Paulo.
  9. Nogueira Neto, P. Vida e criação das abelhas indígenas sem ferrão, São Paulo: Editora Nogueirapis, 1997. 445p.
  10. O Eco. O que é uma espécie invasora. Dicionário Ambiental. Jun. 2014. Disponível em: https://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/28434-o-que-e-uma-especie-exotica-e-uma-exotica-invasora/.
  11. Portugal-Araujo, V., 1963, O perigo de dispersão da Tulipeira do Gabão (Spathodea campanulata Beauv.). Chácaras e Quintais, 107:562.
  12. Queiroz, A.C.M.; Contrera, F.A.L.; Venturieri, G.C. The e?ect of toxic nectar and pollen from Spathodea campanulata on the worker survival of Melipona fasciculata Smith and Melipona seminigra Friese, two Amazonian stngless bees. Sociobiology, v.61, n.4, p. 536-540, 2014.
  13. Redação Pensamento Verde. A relação entre a introdução de espécies exóticas e a extinção dos animais. Jan. 2014. Disponível em: https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/relacao-introducao-especies-exoticas-extincao-animais.
  14. Rodrigues, R. A caça aos ratos em Fernando de Noronha. Mai, 2018. Disponível em: https://www.icmbio.gov.br/portal/ultimas-noticias/20-geral/9616-a-caca-aos-ratos-em-fernando-de-noronha.
  15. Santomauro, B.; Trevisan, R. A introdução de espécies exóticas é sempre nociva à natureza? Nov. 2011. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/2164/a-introducao-de-especies-exoticas-e-sempre-nociva-a-natureza.
  16. Silveira, E. Gatos voltam à vida selvagem e ameaçam espécies nativas de Fernando de Noronha. Fev. 2019. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47343878.
  17. Silveira, E. O perigo das espécies invasoras. Dez. 2009. Disponível em: https://www.revistaplaneta.com.br/o-perigo-das-especies-invasoras.
  18. Trigo, J.R.; Santos, W.F. Insect mortality in Spathodea campanulata Beauv. (Bignoniaceae) flowers. Revista Brasileira de Biologia, v.60, n.3, p.537-538, 2000.
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