Por Marcelo de Medeiros, articulador do GT de Clima, para o Adopt a Negotiator.
O protocolo de Kyoto não colocou metas obrigatórias de redução para os países em desenvolvimento e espera-se que esse quadro mude com o novo acordo a ser discutido em Paris em dezembro deste ano. Algumas variáveis importantes estão em jogo nessa negociação em particular, principalmente as “responsabilidades históricas, porém diferenciadas”, posição defendida por quase todos os países em desenvolvimento nas negociações da UNFCCC, na qual colocam a maior parte do peso da responsabilidade em fazer grandes reduções de GEE para os países desenvolvidos.
Sabemos das responsabilidades históricas dos países desenvolvidos nas emissões de GEE, mas as grandes nações dos países em desenvolvimento estão emitindo níveis alarmantes de GEE e precisam fazer grandes reduções JÁ! Não podemos cair na armadilha de que “temos que poluir para continuarmos a desenvolver nossos países”, pois o modelo de desenvolvimento dos séculos passados não atendem mais as necessidades das sociedades e um novo paradigma de desenvolvimento deve ser levado em conta no planejamento dos países em desenvolvimento, e esse paradigma é de uma economia de baixo ou zero carbono.
Claro que devemos lembrar outro ponto importante nas negociações sobre esse tema: boa parte das emissões de países como China, Brasil e Índia, são “exportadas” para as nações desenvolvidas através de produtos e similares, ou seja, os países desenvolvidos possuem mais um motivo para ajudar os países em desenvolvimento a migrarem para uma economia “carbono zero”.
Para Alexandre Araújo Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará e um dos autores do 1º relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, “em particular, é preciso que se diga que a China tornou-se a maior emissora de CO2, mas que boa parte do carbono emitido por ela é ‘exportado’, isto é, foi emitido para produzir bens de consumo a serem consumidos noutros países, em particular nos EUA e Europa”.
Um caminho pautado pelo desenvolvimento sustentável não somente irá ajudar a alcançar alguns objetivos mais urgentes, como o fim da pobreza e das desigualdades sociais, mas também fazer com que as suas populações tenham um melhor nível de qualidade de vida e que os padrões de produção/consumo sejam sustentáveis ao longo do tempo.
Os países do BRICs em especial, ganharam nos últimos anos um status enorme e força na dinâmica da economia mundial, podendo ter a chance de liderarem a transição para uma economia de baixo carbono que o mundo tanto precisa.

A necessidade dessa transição para uma economia de baixo carbono pelos países em desenvolvimento é cada vez mais nítida: se os principais países em desenvolvimento que são emissores não fizerem grandes contribuições as chances de alcançar o objetivo de manter a temperatura em 2ºC são mínimas. De acordo com André Nahur, coordenador de Clima e Energia da WWF Brasil:
“no caminho que estamos das emissões a responsabilidade agora tem que ser compartilhada. Todos temos responsabilidade e a urgência de compromissos efetivos e eficientes é compartilhada: a China é o 1º maior emissor e o Brasil o 6º, a Índia o 3º, sem estes países fazendo compromissos efetivos não teremos um acordo efetivo. E a cooperação com países desenvolvidos é fundamental, mas a responsabilidade ética e moral de reduzir emissões e criar um futuro resiliente e de baixo carbono é de todos”.
Quanto mais demorarmos a aceitar e principalmente a colocar em prática esse conceito nos diversos setores da economia dos países em desenvolvimento será muito difícil manter o objetivo de limite máximo de aumento da temperatura em 2 ºC. Para que o acordo em Paris seja efetivo de todas as maneiras precisamos agir como um só e colocar a prioridade do planeta acima de qualquer estratégia ou interesse particular de poucos países.
SOBRE O AUTOR: Marcelo de Medeiros é articulador nacional do GT de Mudanças Climáticas da Engajamundo e Sócio-Consultor da PLANTIS Inteligência em Sustentabilidade
