Blog, Impacto A história de Hamangaí Pataxó Hã-Hã-Hãe

14 de novembro de 2019

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Sou Hamangaí Marcos Melo Pataxó, jovem indígena de 22 anos. Nasci no município de Pau Brasil na Bahia, filha de duas nações indígenas, Terena e Pataxó Hã-Hã-Hãe e crescida na Aldeia Caramuru Catarina Paraguaçu. Neta de benzedeira, Egida Trajano da Silva, hoje com 99 anos de idade, cresci ouvindo os ensinamentos da importância das ervas no processo de cura de todos aqueles que a procuravam. Desde pequena, quando eu era rezada, era orientada a buscar o ramo de folhas e assim aprendi sobre as ervas e seus poderes. 

Na aldeia Caramuru, onde passei boa parte da minha infância, o acesso à água potável é muito difícil e teve vezes que minha mãe raspava a caixa de água para poder matar minha sede. Era esperada a chuva ou a ida na cidade para que pudéssemos encher nossas vasilhas de água novamente. Tudo isso provocado e agravado pelas mudanças climáticas, a qual afeta até os dias atuais nossa realidade na comunidade.

Ainda criança, eu e minha família nos mudamos para uma outra parte da comunidade, agora iríamos morar na aldeia Água vermelha. Diferente do Caramuru, agora tínhamos um belo rio no qual eu brincava muito nele, apesar de ser muito mais longe da cidade. Na minha infância eu tive várias brincadeiras que sempre envolvia elementos da natureza. A água, folhas, pedras, barro, joaninhas, peixes, sementes. Nada com muito luxo, tudo vindo da natureza e com minha imaginação. 

Aprendi a ler com 9 anos de idade e sempre fui uma menina tímida mas muito observadora de tudo que acontecia ao meu redor fora e dentro da comunidade. O tempo foi passando e a moça crescendo… Sempre tentando ser participativa e atenta a escutar o que os mais velhos diziam. Em 2015, participei pela primeira vez do Acampamento Terra livre em Brasília, juntamente com vários outros povos do Brasil. Antes de saber que eu também iria com a delegação da minha aldeia para Brasília eu tive um sonho no qual retratava bem a luta que estava por vir. E assim eu segui juntamente com minha mãe e irmã e os demais da minha aldeia para a maior assembleia dos povos indígenas do Brasil. O acampamento para mim, até hoje, é uma grande escola de formação de novas lideranças. 

Depois dessa grande experiência não parei mais e com frequência ia com delegações da minha aldeia e aldeias vizinhas rumo a reivindicações dos nossos direitos em Brasília.  Procurei ser mais participativa também em reuniões em minha comunidade e sempre tentando motivar os demais jovens a se engajarem também na luta . Reafirmando dentro de mim que não podemos deixar de lutar e nós jovens precisamos honrar a luta que os nossos antepassados iniciaram.

Tive a oportunidade de trocar experiências com jovens de oito povos indígenas do nordeste no qual me motivou ainda mais a lutar em defesa de nossos direitos e pelo protagonismo da juventude Indígena e em defesa da Mãe Terra.  E em 2016, através de um outro jovem da minha aldeia, eu conheci o Engajamundo. A dificuldade de acesso a internet e sinal telefônico em minha casa na aldeia me impossibilitava em participar das reuniões que eram online. No entanto a cada dia que eu ouvia falar dessa organização de jovens e sobre determinados temas eu sentia cada vez mais curiosidade em conhecer mais sobre. E logo depois de um tempinho recebi o convite através desse jovem para participar do encontro regional do engajamundo, que aconteceu em Pernambuco. A princípio minha mãe não concordou muito com a ideia que a filha dela começava a voar mas tentei deixar claro que seria um momento muito importante para conhecer e aprender coisas novas . A princípio eu me senti perdida mas estava encantada com a quantidade de jovens falando sobre vários assuntos e sobre novas ferramentas que poderíamos usar. Muitas palavras novas… uma delas era o ATIVISMO. Voltei para minha aldeia com o coração cheio de amor pelas novas amizades que eu tinha conquistado e pela baita inspiração de como atuar em minha comunidade junto com os demais jovens. 

Já faz um pouco mais de três anos que eu faço parte do Engaja. Essa rede  esteve comigo em vários momentos de minha trajetória e um que marcou muito foi no suporte que tive quando minha irmã foi agredida dentro da minha própria aldeia, e não fazíamos ideia de onde e como buscar ajuda para que nenhuma mulher viesse passar por isso, muito menos uma jovem. Me sentia inútil e assim como minha irmã totalmente vulneráveis. No entanto, o Engajamundo despertou dentro de nós a importância de não desistir e de como poderíamos atuar e conhecer também os nossos direitos.

Atualmente faço parte do GT Clima e Gênero, participei do Encontro Nacional da rede, que aconteceu na Amazônia em 2017, no qual pude conhecer a realidade local, os jovens daquela região e os outros jovens do engaja de diversas partes do Brasil. Dezembro do ano passado estive na Polônia,como parte da delegação do Engaja na COP24, juntamente com outros engajadinhos das cinco regiões do Brasil. Em Maio desse ano, estive em Roma, participando do Villagio Ler La Terra, no qual falei para jovens italianos o quanto a juventude precisa estar cada vez mais organizada e unida em defesa da Mãe Terra.

Tenho ido em escolas principalmente aqui no recôncavo baiano, falar com jovens e crianças sobre as questões ambientais, um pouco dos desafios vivendo fora de minha aldeia e tentando descolonizar o pensamento e saber sobre nós, povos indígenas. Não é fácil permanecer na Universidade e essa também tem sido a minha luta junto aos demais estudantes indígenas e quilombolas .

Recentemente fui convidada para participar da Cúpula das jovens ativistas que será realizado em Genebra, Suíça. Em 10 de  Dezembro, uma data emblemática. No dia Internacional dos direitos humanos! O Engajamundo tem sido um potencial da luta coletiva protagonizada por nos jovens de diferentes contextos. Me sinto forte sabendo que não estou sozinha nessa luta e que junto a mim tem vários outros jovens fazendo nosso trabalho de formiguinha mas de grande valor. 

Eu cresci e estou florescendo a cada dia mesmo em uma realidade genocida e racista. Aos poucos tenho vencido algumas barreiras pessoais como por exemplo falar em público e fico feliz que jovens que muitas das vezes eu nem conheço me tem como inspiração. Isso reflete muito nas nossas sementes que estamos plantando e que breve estarão aí, florescendo na luta . 

Nós jovens somos sementes da luta. A força dos meus antepassados me mantém firme e é dela que eu peço todos os dias coragem e proteção pra seguir na luta . Sou grata por fazer parte dessa rede. Em que nos inspiramos e nos fortalecemos!!! Sou grata às amizades, pelo acolhimento e me sinto contente em saber que hoje temos mais indígenas, quilombolas e ribeirinhos nessa rede linda. 

Espero que mais jovens tenham a oportunidade de conhecer o Engaja e que cada vez mais nossa rede chegue nos quatro cantos desse Brasil motivando e inspirando essa galera. 


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