Blog, Clima, GTs A sobrecarga é pra quem?

1 de agosto de 2018

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Por Giselli Cavalcanti e colaboração de Felipe Barros Machado

Desde os anos 1970, foi criada uma data marco importante para todos nós que estamos de olho no impacto que deixamos no planeta: o Dia de Sobrecarga da Terra. Mas você sabe o que ele significa? Essa data anual marca o dia que teremos consumido todos os recursos naturais possíveis de serem renovados no período de um ano. Resumindo o rolé: marca a data a partir da qual vamos consumir recursos tendo sempre o saldo negativo com o planeta.

Além da existência desse marco por si só, já ser um problema pra nós (ninguém gosta de viver pagando fiado né? Uma hora a conta chega), existe uma questão envolvida que agrava um pouco mais a situação: a cada ano, essa data chega mais cedo. Em 1970 nossa conta veio dois dias antes da virada do ano, quando esgotamos nossos estoques naturais no dia 29 de dezembro. Em 2018, com menos de meio século de diferença, nossos últimos cinco meses do ano vão ser de dívida: em 1ª de agosto vamos ter esgotado os recursos renováveis que deveriam durar o ano inteiro.

Mas quando falamos em “nós” ou na “humanidade” que tanto consome, de quem realmente estamos falando?

A América Latina tem o mesmo peso nesse consumo que os países da Europa? O Haiti consome tanto quanto Qatar? A região Nordeste do Brasil é responsável por uma fatia igual a dos estados centrais dos Estados Unidos? Se a gente pegar o padrão de consumo de cada localidade dessa, a gente chega e resultados bem diferentes, a realidade é essa. Para a China e os Estados Unidos (dois dos grandes consumidores atualmente) poderem manter o padrão, outras localidades necessariamente consomem bem menos – tendo também menores possibilidades de se adaptarem com a falta de recurso atual e futura.

Se mobilizar com o marco do dia vai muito além de questionar os hábitos de consumo individuais, de uma suposta “humanidade” que funciona de uma forma igual. Vai também na direção de cavar a fundo o que faz com que parte da sociedade consuma tanto enquanto (e na verdade, por causa que) outra parte consome tão pouco. Vai em refletir que esse consumo exagerado não é culpa (apenas) do vizinho que deixa a mangueira aberta no jardim ou a luz acesa tanto tempo em casa, mas que é em grande parcela reflexo do nosso modelo de desenvolvimento que diz que consumir mais é sinônimo de viver melhor.  Vai, assim, na contramão de enxergar os problemas ambientais como caixinhas isoladas e perceber que aí temos muitos fatores sociais que atravessam – e tendo fatores sociais, temos pessoas, temos mobilização e temos potencias de sermos também parte da solução.

Nós somos o ambiente e o ambiente somos nós. A sobrecarga é nossa, a capacidade de agir também.


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