Blog, Gênero, GTs Quem tem medo de corpo estranho? #MatheusaPresente!

9 de maio de 2018

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Por Rafa Ella Brites, uma sobrevivente

É extremamente difícil manter a esperança acesa quando mais uma de nós é assassinada. Quando uma pessoa como você é executada e queimada, na noite, por você simplesmente existir.

Há que se questionar os padrões de corpo, gênero e sexualidade, não só na terra do samba, mas nos fundamentos da sociedade. Nesse mundo colonizado por uma noção bem específica (nada neutra, nada universal) de civilização, racionalidade e natureza.

Há que se manter a dor viva no peito, pois memória é resistência: o Brasil é líder mundial no assassinato de pessoas trans no mundo. Só em 2018, mais de 64 pessoas foram executadas por não se adequarem ao regime do gênero.

Você consegue sentir a emergência? Estamos sendo exterminadas, brutalmente. Uma caça às bruxas. Uma ditadura do sexo onde não há vez e voz para as dissidências.

De Matheusa Passareli, @theusinha, foram encontrados apenas seus restos queimados. Ela fora assassinada quando saía de uma festa, no Rio de Janeiro, onde estudava Artes Visuais e atuava como performer, modelo, artista, tatuadora, transgressora, resistência: uma pessoa trans não-binária. Desenvolvia sua poética sobre CORPO ESTRANHO: o corpo queer, nada inteligível, o corpo que não se explica, nas margens do que se entende como “corpo certo”.

Terrivelmente, o corpo estranho de Matheusa fora vítima do transfeminicídio em curso nesta terra de santa cruz. O Rio de Janeiro continua lindo?

#TheusinhaVive em movimento. E deve ecoar pelas redes, peitos e poesias da vida, seja trans ou não, seja cis ou não, independente do gênero, do corpo: #MatheusaPresente na nossa resistência contra as violências de gênero que acometem pessoas trans todos os dias, assim como as mulheres, as bichas, as putas, assim como todas as dissidências.

Como dizia Matheusa, “se tiver que existir uma dicotomia entre o amor e ódio, eu escolho o amor”. Que ecoemos o amor e nos cuidemos, que criemos redes de afeto, de cura, de assistência: nunca se sabe a próxima vítima.

Luto também é verbo. A morte de Matheusa não será em vão. #ParemDeNosMatar!


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