Blog, Habitat III “Que utopia de cidades queremos construir?”

31 de outubro de 2019

Compartilhar

FacebookTwitterPinterestLinkedInEmail

Hoje, dia 31 de outubro, a ONU celebra o Dia Mundial das Cidades! Pensá-las em um Brasil que já possui mais de 84% de taxa de urbanização – que é a porcentagem da população em cidades em relação à população total daquele lugar- nos parece fundamental. Puxa, temos o desafio de pensar soluções para um país com dimensões continentais e que pela sua história, nunca teve o planejamento como pilar de desenvolvimento. O que temos hoje na maioria das cidades é uma reação de tentar lidar com um aumento demográfico explosivo que aconteceu a partir do processo de industrialização dos anos 50. Com políticas que raramente colocaram as pessoas em seu centro, ocupar as margens se mostrou como saída.

E hoje? Como estamos pensando esse trânsito entre margem e centro? Entre cidades e campos, já que ainda são esses espaços que nos suprem de alimento – mesmo que os agricultores familiares que produzem cerca de 70% da comida que vai para nosso prato estejam sendo sistematicamente engolidos pelos grandes latifúndios. Até entre nossa casa e trabalho. As relações estão mudando, e mesmo as estruturas sendo preguiçosas para mudarem também, sonhar com o que queremos para nossas cidades nos servirá para iluminar caminhos. Entender as raízes das desigualdades – sociais, comerciais, raciais, ambientais – e começar enfim a sonhar. Qual nosso sonho de cidade e como nos coletivamos para construí-lo? Pensando nisso o GT Cidade trouxe reflexões que possam nos fazer desconstruir o que temos e pensar além!

“Que utopia de cidades queremos construir?”

Por André Baltazar, articulador do GT Cidades e do EngajaParaíba

Tainá de Paula, arquiteta e urbanista, e coordenadora do Brasil Cidades <3

Em Agosto, aqui em João Pessoa, tive o prazer e a honra de assistir a uma palestra ministrada pela arquiteta e urbanista Tainá de Paula, coordenadora do Núcleo Rio de Janeiro do Br Cidades. Em sua fala final, Tainá fez uma provocação que mexeu com minha cabeça e me inspirou a fazer esse texto: Afinal, se o futuro não é certo e podemos construí-lo como acharmos melhor, “que utopia de cidades queremos construir?”

Quando se pensa em cidades do futuro, normalmente se imagina cidades altamente tecnológicas, inteligentes, bem comum em obras de ficção científica e que já estão se tornando realidade em diferentes partes do mundo, principalmente na Ásia. Mas, seria esse o modelo mais sustentável para as cidades? Quando se pensa nesse tipo de cidades, estão sendo considerades todes? A maioria da população mundial vive atualmente em assentamentos informais e periferias. Então, esse modelo futurista de cidades realmente leva em consideração as necessidades e os anseios dessa parcela maior da humanidade?

E essa questão me leva à outra provocação da arquiteta Tainá de Paula: “O futuro seria desurbanizar as cidades?” Mesmo quando se pensa em desenvolvimento sustentável, parece que ainda se está preso à ideia de crescimento infinito, de nunca parar ou recuar. Deve-se mesmo continuar urbanizando e “civilizando” tudo que se encontra pela frente? Povos tradicionais precisam dos saberes e tecnologias da urbe para serem sustentáveis? Ou é o meio urbano que precisa aprender o que é ser sustentável? Desurbanizar as cidades seria mesmo um retrocesso? Ou apenas retomar o caminho correto para sustentabilidade?

São muitas questões e muitas mais possíveis respostas que levam às cidades dos sonhos. Efetivamente tratar moradia, transporte, saneamento, lazer, etc. como direitos para todes em vez de privilégios. Melhor integrar diferentes usos (residências, comércios…) e pessoas (classes sociais, etnias…), promovendo diversidade em vez de segregação. Reaproveitar a infraestrutura existente da cidade, como imóveis vazios, em vez de continuar expandindo a malha urbana. Priorizar pedestres, ciclistas e transporte público, preferencialmente integrando esses modais, como ocorre em muitas cidades europeias e até da América Latina.

Melhor integrar a natureza, aproveitando seu potencial para solucionar questões urbanas, por exemplo, lazer, clima, drenagem (como biovaletas e jardins de chuva) e até mesmo produção de energia e de alimentos nas cidades! São diversos possíveis caminhos com tremendas vantagens sociais, econômicas e ambientais, ou seja, efetivamente sustentáveis. Alguns podem parecer distantes, mas outros já existem. E certas ideias podem destoar do que se pensa e se espera de cidades, mas o meio urbano está cada vez mais insustentável, então repensar as cidades também significa rever conceitos e romper padrões.

Trabalhar o ambiente urbano é algo complexo, pois não existe um modelo único e perfeito de cidade para todos os contextos, são muitas as tramas sociais, culturais, naturais, climáticas, etc. a serem consideradas. Mas, uma coisa é certa: Precisamos de cidades pensadas por todes para todes, indiscriminadamente de classe social, etnia, orientação sexual, identidade de gênero, naturalidade, etc., e considerando também quem vive fora das cidades, pois também são atingides por problemas urbanos. Afinal, tudo está interconectado, tudo é interdependente. Então, se todes são de alguma maneira afetades, chamem todes para participar do debate e da construção dessas utopias de cidades!

Alguns links que falam do que a gente falou ; )

dw.com/pt-br/quem-produz-os-alimentos-que-chegam-à-mesa-do-brasileiro/a-42105492

https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/urbanizacao-do-brasil-consequencias-e-caracteristicas-das-cidades.htm

FacebookTwitterPinterestLinkedInEmail

Buscar