Blog, Gênero Uma trava-língua na boca hegemônica

7 de março de 2018

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por Rafa Ella Brites*

Há sempre fissuras por onde podemos nos infiltrar e registrar nossa (r)existência. Na maioria das vezes não somos compreendidas. O ‘bug’ no sistema, a goteira no teto, a pedrinha que entra no sapato. Nossas corpas ao pronunciarem a si, pronunciam uma contestação sistemática da vida.

Na tentativa de traduzir minhas (r)existências como uma possibilidade de vida, criar recursos simbólicos tem sido uma tática epistemopolítica e existencial de sobrevivência. Isto é, partindo de outras matrizes de conhecimento e entendendo meu lugar de fala na teorização da vida, subverto a razão ocidental em ecos dos meus rompimentos, como que uma oração que faço a mim mesma na tentativa de registrar minha história e exorcizar as estradas do mapa feito pelo colonizador. Entendendo que a minha solidão, minha loucura, minha corpa dissidente e contranormativa, constitui epistemes divergentes, que enunciam não só o lugar de oprimida mas o subvertem.

Pela ocupação da minha corpa eu refaço a história do mundo. E este é o maior desafio.

Encontrar lugares de escuta em territórios de matrizes culturais cujas linguagens são binaristas e universalistas, embranquecidas, higienizadas, é quase uma intoxicação voluntária. A alquimia de transformar minha corpa e a bruxaria de manter a alma viva aonde havia um discurso vazio e colonizado inclui, também, subverter a linguagem a ponto de fazermos a nossa. De criarmos nossos recursos simbólicos, nossos signos, nossas trajetórias, nossas curas, entre profanações e santidades múltiplas.

Tentar falar de minha vida de travesti não-binária, gênero-divergente, paroafetiva (de atrações múltiplas), panromântica, sexualmente negociável, monodissidente, latina-sudaca-brasuka, interiorana, com pés número 42 em constante guerrilha com a indústria de calçados femininos, com uma incompreendida frô que nasce entre minhas pernas e ocupa minha feminilidade, é como a goteira no teto, como o ‘bug’ no CIStema, como a pedra pontiaguda no sapato burguês.

Tentar falar de minhas (r)existências é como pedir pra boca hegemônica, que produziu nossas verdades, pronunciar um trava-língua tão rapidamente que a própria língua não conseguiria dar conta, muito menos nossas percepções de entender. E eis a nossa estratégia: travar a língua hegemônica que produz verdades normativas. Entendendo “trava” como o apelido que damos às travestis, um trava-língua seria nosso idioma-coquetel-molotov? Seria a linguagem que subverte a linguagem e seus cânones norte-europeus?

Há, sempre, fissuras. Sempre há rachaduras por onde fluímos, aquosas, sereias. Há sempre uma brecha por onde nos infiltramos e destruímos tudo por dentro. Não se trata de más intenções e extremismos, se trata de artimanhas da sobrevivência. Na cadência do mundo profanamos nossa contestação. Mesmo que isso signifique queimar o mapa e germinar para além do unidimensional, para além do chão até agora possível.

Travando a língua hegemônica, abrimos nossas corpas para toda sua potência.

*Rafa Ella também escreve para o Blog Sereias Subversas


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