Blog, ODS ORGULHO Define!

26 de junho de 2020

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Por Amanda Costa (São Paulo), Victor Capellari (Poços de Caldas), Alex Felype Lacerda (São Paulo), Maria Oliveira (Corumbiara), Isabelle da Silva (Brasília), Jessica Klüger (São Paulo), Larissa Yukie (Maringá)

EAE JOVEM, provavelmente em algum momento da sua vida você deve ter se deparado com a sigla LGBTI+, mas você sabe o que ela significa? Você conhece a história por trás desse arco-íris todo?

A sigla LGBTI+ começou a ser mais utilizada nos anos 2000, quando as pessoas perceberam que o termo GLS (Gays, Lésbica e Simpatizantes) era muito excludente. Desde então, ela vem sendo adaptada e surgem cada vez mais letras para que todas as orientações sexuais e identidades de gênero se sintam incluídas. É como se a cada dia surgisse uma nova cor no arco-íris e você sabe que quanto mais colorido melhor, né?

A primeira grande rebelião pelos direitos LGBTI+ ocorreu no dia 28 de junho de 1969 no bar Stonewall Inn, em Nova York. Esse primeiro ato foi um “not today, Satan” [vulgo, sai pra lá satanás] para a violência policial que diariamente faziam revistas extremamente ofensivas em bares homossexuais em Nova York. O ato de resistência e enfrentamento às autoridades locais tornou-se base de lutas e conquistas da comunidade, sendo considerado até hoje como símbolo da libertação LGBTI+. Um ano depois do ocorrido, em 1970, milhares de pessoas retornaram ao lugar e realizaram a primeira marcha do Dia da Libertação (aí siim, até arrepiei)!

E você sabia que o Brasil teve seu próprio Stonewall?? Pois é. Ele aconteceu no dia 19 de junho de 1983, em plena ditadura militar!  O jornal lésbico “Chanacomchana” era vendido no Ferro’s Bar, porém os donos, como cidadãos de bem, acharam o jornal muito subversivo e expulsaram as mulheres do bar. Quem é inteligente sabe que a pior coisa que você pode fazer é deixar uma sapatão brava. Assim, mulheres lésbicas juntamente com outros membros da comunidade LGBTI+ ocuparam o bar, realizando o primeiro levante do tipo no Brasil e inspirando diversos outros.

“O orgulho LGBT vem da afirmação de si enquanto algo bom e potente. Me afirmar transvestigênere, me afirmar pansexual, vem desse lugar. De ver o mundo através do meu corpo e resgatar aquilo que não destrói a ele, nem a mim. É uma postura de gestação, de si e do mundo, onde toda pessoa humana ganha novos contornos. Onde toda pessoa brilha ?” – Rafa, engajadinha do GT Habitat

Mas como foi que passamos de GLS para LGBTI+, que é uma versão curtinha de LGBTTTQQIAA. E se cada letra é uma cor do arco-íris, vamos então entender o que é cada letra? Começando pelo começo, que também é o mais conhecido. (coloca a música da Xuxa de fundo, produção)

L de lésbica – pessoa que se identifica como mulher e sente atração por outras mulheres;
G de gay – pessoa que se identifica como homem e sente atração por outros homens;
B de bissexual – são as pessoas que sentem atração por homens e mulheres ou por qualquer pessoa, independente do sexo ou gênero (os famosos pansexuais);
T de  trans – são pessoas cujo gênero designado ao nascimento é diferente do gênero que possuem,  mas mesmo assim, nem todas as pessoas que se encaixam nesta definição se identificam como trans; como é o caso de pessoas que não vivem em culturas onde só existem dois gêneros;
Q de Queer – termo vago, significa, basicamente, “estranhe”, algumas pessoas definem seu gênero como queer, ou como genderqueer (“gênero queer”), por não quererem/saberem defini-lo além de “nem homem, nem mulher”, ou por desafiarem as normas de ser homem ou mulher;
I de Intersexo – termo utilizado para um grupo de variações congênitas de anatomia sexual ou reprodutiva que não se encaixam perfeitamente nas definições tradicionais de “sexo masculino” ou “sexo feminino”;
A de Assexuais – são pessoas que não sentem atração sexual por nenhum gênero. Algumas pessoas assexuais não sentem atração sexual por ninguém, enquanto outras sentem atração sexual certas vezes, e/ou em certas circunstâncias.

É sempre bom lembrar que, entre outros importantes motivos, a sigla ampliada vem para somar, incluir e dar visibilidade a todos, todas e todes. Dessa maneira, longe de ser mais um rótulo, restrição ou estereótipo, cada letrinha dá margem a vivências pessoais e diferenciadas e resulta, assim, na diversidade intrínseca da nossa comunidade. E por não ser esse conceito rígido que cada letra tem o seu próprio espectro e assim, a maior quantidade de pessoas se sintam representadas.

“A nossa comunidade é, primeiramente, um espaço – que vai muito além do físico – de pertencimento plural. É um movimento de luta rico de história e memória que sempre deu as mãos – e nunca pode deixar de, apesar do que, infelizmente, uma parcela se esqueça – a tantas outras lutas.” – Lucas, engajadinho do GT ODS

Pois é. Apesar de toda essa luta, pertencer à comunidade LGBTI+ ainda é um desafio em diversas partes do mundo. 

Europa 

A Alemanha e a França concedem tratamento relativamente progressivo para as questões da população LGBTI+. Desde 2017, pode casar e adotar SIM! E nem pensar em discriminação e discurso de ódio: é crime, viu? Por lá, o cenário cultural LGBTI+ é rico e existem vários políticos de destaque e outras figuras públicas na Alemanha que são abertamente gays. Os transgêneros também têm permissão por lei para mudar sua identidade sem necessidade de cirurgia, embora seja necessária uma avaliação psiquiátrica.  

Outro país que não fica para trás quando se fala em progresso é a Noruega. Foi um dos primeiros do mundo a introduzir leis anti-discriminação com base na orientação sexual, em 1981. Além disso, o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal desde 2009 e os casais do mesmo sexo têm os mesmos direitos que os casais de ambos os sexos, incluindo adoção e acesso à fertilização in vitro. As pessoas trans podem, por lei, alterar seu gênero puramente com base na auto-identificação.

Só que nem tudo são flores… As sociedades europeias, principalmente no meio rural ainda são muito conservadoras e as questões identitárias ainda são suprimidas em certos contextos, como no ambiente de trabalho. Assim, algumas pessoas ainda sentem que lutam para se encaixar na sociedade. Vale lembrar, também, que a Europa não é um continente homogêneo e, se existem países que asseguram a maioria dos direitos das pessoas LGBTI+, logo ao lado existem  outros que diariamente violam esses direitos. 

China

Até 2001, homossexualidade ainda era classificada como uma doença mental por lá e, atualmente, é listada juntamente com a pornografia como um tabu nos meios de comunicação de massa. Além disso, é considerada uma ameaça à continuidade da linhagem familiar, já que casais de homossexuais são proibidos de adotar. A expressão de gênero também é difícil. Jovens com menos de 20 anos de idade não podem mudar legalmente de sexo e, quando podem fazê-lo, encontram-se desprotegidos contra a discriminação.

Mas você deve estar se perguntando: e como será que é viver na China como uma pessoa LGBTI+ expatriada? Bom, isso está longe de ser um problema. Os chineses preferem evitar conflitos e a homofobia é rara. Os millennials chineses, em particular, tendem a ser tolerantes e de mente aberta. Cidades cosmopolitas como Xangai, Hong Kong e Chengdu têm uma próspera cena gay com clubes e bares, cerimônias de casamento gay (apesar da falta de reconhecimento legal) e um ambiente seguro no qual as pessoas LGBTI+ podem viver suas vidas de maneira aberta e pacífica.

Índia

A homossexualidade foi descriminalizada na Índia em 2018, além de ter sido criado um mecanismo legal de proteção contra a discriminação no local de trabalho. Esse avanço contribuiu para desestimular práticas violentas, como o discurso de ódio. A parte triste, contudo, é que parceiros do mesmo sexo não possuem direitos legais e não há possibilidade de casamento e tampouco de adoção. 

No âmbito familiar, ainda há muito receio de auto afirmação. Grande parte da sociedade indiana é tradicional e espera-se que as relações sejam estabelecidas por meio de casamentos arranjados. Contudo, a situação está mudando lentamente, graças a uma comunidade vocal LGBTI+ e a vários eventos do Pride em toda a Índia, bem como a festivais culturais LGBTI+.

Outro fato que chama atenção é que a Índia tem cerca de 4,8 milhões de pessoas trans, conhecidas como hijras ou hijadas. As pessoas trans são reconhecidas por lei como ‘terceiro sexo’ e podem alterar sua identidade em determinadas formas e documentos, embora ainda não lhes seja permitido, por lei, alterar seu nome legal. Desde 1997, pessoas trans têm direito, por lei, ao mesmo salário que homens e mulheres por fazerem o mesmo trabalho. 

Países árabes

No Irã, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Iêmen, as leis estipulam que, se uma pessoa estiver envolvida em comportamento sexual com alguém do mesmo sexo, a pena de morte será aplicada. Jordânia, Bahrein e Iraque são os únicos países árabes onde a homossexualidade é legal. Algumas nações do Oriente Médio também apresentam certa tolerância e proteção legal para pessoas transexuais e transgêneros. Os governos iraniano e sírio, por exemplo, já aprovaram operações de mudança de sexo. O grande problema nesse contexto é que as questões LGBTI+ são vistas como puramente ocidentais. 

Aos poucos, entretanto, essa discussão tem começado a integrar as agendas governamentais e de alguns dos principais movimentos de direitos humanos. Um dos reflexos disso, é que, em países como Marrocos e Egito, já há advogados para defender as pessoas quando elas são presas. Tal avanço não foi conquistado por meio da política de identidade, mas sim devido ao enquadramento das situações das pessoas LGBTI+ em termos de violações e proteções de direitos que os movimentos de direitos humanos existentes entendem. (Human Rights Watch 2009, p. 18). 

Como você pode ver, a luta pelos direitos LGBTI+ ainda está longe de acabar, os membros da comunidade continuam sofrendo discriminação, são perseguidos, alvos de fake news  e carecem ainda de inúmeros direitos. No entanto, não se pode esquecer os inúmeros combatchys que a comunidade já ganhou: as paradas LGBTI+ estão (estavam) ganhando cada vez mais visibilidade (coronga, você nunca será perdoado), empresas estão se movimentando para ter um quadro de funcionários cada vez mais diverso e a LGBTfobia foi considerada pelo STF como um crime equiparado ao racismo. Agora, em época de pandemia, pipocaram inúmeros eventos online para comemorar o mês do orgulho LGBTI+, como a Feira Diversa realizada por empresas privadas eeeee a Campanha “A Parada Não Para” do Engaja! É preciso lembrar sempre que a luta contra a discriminação da comunidade LGBTI+ não é uma luta só das lésbicas, gays, trans, bis e a as outras letrinhas todas.. essa luta é sua, é nossa, é de todo mundo, porque todos temos o dever de lutar por um mundo melhor para todos.

“Minha visão de mundo ideal é que nosso gênero, nossa orientação sexual e nossas escolhas não fossem palco para tantas atrocidades, que a sociedade entendesse que é natural e que não há problemas em nada disso… até porque não atrapalha a vida de ninguém, o que atrapalha e é tóxico e tira milhares de vidas de forma direta e indireta é o preconceito, a não aceitação.” – Frances, engajadinho do GT Bio

“Meu mundo ideal é um mundo de consciência individual e coletiva plena. Um mundo onde pertencer não é mais privilégio, onde todos se encontrem. Um mundo em que a sobrevivência de muitos não esteja em cheque, mas sim, um mundo construído para o bem do todo.” – Lucass, engajadinho do GT ODS


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