O Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia é celebrado anualmente em 17 de maio, vulgo hoje. Como já trouxemos, a data refere-se ao dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1990, retirou a homossexualidade da classificação de doenças e problemas relacionados à saúde.
Desde então, a data serve como um dia de conscientização da luta pelos direitos dos LGBTQ+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros…), pela diversidade sexual e contra a violência e o preconceito.
Para marcar a data, o Grupo de Trabalho sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (GT ODS) conversou com alguns integrantes do Engajamundo. Em entrevista, elxs responderam algumas perguntas sobre o tema. Confira abaixo:
– Quando você se descobriu homossexual e como foi esse processo de descobrimento?
Filomena: Olha, quando eu comecei a amar a atual pessoa que tá comigo. Quando me envolvi de fato com ela vi quem eu era e como queria seguir minha vida.
Godofredo: Desde que eu era criança eu sofria homofobia. As crianças batiam em mim por que achava legal bater no viadinho e eu apanhava pelo jeito que eu falo, que ando e me comporto. Durante muito tempo eu chegava em casa roxo, chorava e não entendia o que era ser gay. Eu sentia atração por meninos, mas “criança não namora”, sabe? Lá para os meus 15/16 anos eu comecei a me questionar: sou gay? sou bi? Aprendi com as meninas do GT Gênero que não precisava me rotular. Namorei meninas, fui homofóbico… Quando namorei um menino foi uma montanha russa de emoções, me senti num redemoinho!
Dionísio: No começo eu sentia que era errado e tentava me esconder. Muitas vezes deixei de ser eu mesmo e fazer coisas que eu gostava, de usar roupas que curtia. Isso ocorreu principalmente pelo bullying que eu sofria na escola.
– Como foi seu processo de auto aceitação e você teve que lutar contra seus próprios preconceitos?
Filomena: Ainda estou em processo porém ter pessoas ao meu lado tem ajudado bastante.
Godofredo: Foi quando eu tive meu primeiro relacionamento com um menino. Tive que lutar contra os próprios preconceitos que havia dentro de mim, pois já fui homofóbico. O processo foi bem lento pois tive que destruir paradigmas para aceitar quem eu estava me tornando.
Dionísio: Muitas pessoas vivem uma vida baseada no que outros estão falando. Ainda hoje, eu, com 23 anos, vejo que comentários de pessoas próximas interferem nas coisas que desejo fazer, nas roupas que desejo usar, no curso que eu quero estudar, no tipo de atitude que eu desejo ter. Quando a gente fala da questão de auto aceitação, a sociedade quer que sejamos “comportados” e tenhamos traços heteronormativos, uma coisa bem patriarcal! Isso é algo que precisa ser desconstruído primeiro de fora para depois ir para dentro. Eu percebo que alguns preconceitos vieram da infância, mas hoje estou trabalhando para desconstruir.
Dionísio: Muitas pessoas vivem uma vida baseada no que outros estão falando. Ainda hoje, eu, com 23 anos, vejo que comentários de pessoas próximas interferem nas coisas que desejo fazer, nas roupas que desejo usar, no curso que eu quero estudar, no tipo de atitude que eu desejo ter. Quando a gente fala da questão de auto aceitação, a sociedade quer que sejamos “comportados” e tenhamos traços heteronormativos, uma coisa bem patriarcal! Isso é algo que precisa ser desconstruído primeiro de fora para depois ir para dentro. Eu percebo que alguns preconceitos vieram da infância, mas hoje estou trabalhando para desconstruir.
– Qual foi a importância desse auto reconhecimento??
Filomena: Ainda não sou assumida.
Godofredo: Foi um processo libertador, que me tirou um peso enorme. Quando me assumi, tive medo de perder amigos e ser tratado diferente pelos familiares. No começo não foi fácil, minha mãe queria me expulsar de casa e meu pai ficou calado. Um dia eles me chamaram para conversar e me perguntaram quando isso começou. Quando disse que foi na infância, minha mãe respondeu: “não! Isso foi porque eu te coloquei na escola pública. Você virou viado porque estudou na escola pública!” Hoje ela não aceita, mas respeita.
Dionísio: Antes de se expor, é importante você estar bem consigo mesmo, para que as opiniões externas não te afetem. Primeiro se autodeclare, depois declare para as outras pessoas.
– Neste ano, devido à crise do COVID-19 houve o cancelamento das Paradas Gays em diversas cidades. De que forma você acha que isso pode impactar no reconhecimento e na luta pelos direitos das pessoas homossexuais no Brasil?
Filomena: O mês do orgulho é justamente o período em que podemos celebrar os nossos amores e conquistas. Acredito que o fato de não termos um espaço na mídia/debates por conta da pandemia será um retrocesso imenso para as discussões sobre o tema. Todo ano subimos- ao menos tentamos- um degrau e esse ano vamos encontrar mais empecilhos.
– Nós sabemos que o atual presidente da república se autodeclara “homofóbico e com orgulho” e que grande parte dos seus eleitores compartilham o mesmo pensamento. O que a eleição desse homem representou para você?
Filomena: Medo do que pessoas como ele possam fazer e mobilizar.
Godofredo: A eleição desse homem representa a sociedade brasileira: cristã, de direita, homofóbica, machista e preconceituosa. Isso é um retrocesso gigantesco! Eu, particularmente, chorei quando soube que “esse homem” assumiu o poder por não saber o que ele faria com nossa comunidade.
Dionísio: Eu parei de ver notícias, pois estava mexendo muito com a minha saúde mental. Confesso que fiquei muito triste quando Bolsonaro ganhou, pois vejo o Brasil como um país muito patriarcal, machista e homofóbico. Ter essa pessoa no poder, que ridiculariza a comunidade, faz com que a população legitime e externalize seus preconceitos.
– Apesar do cenário político, a comunidade também teve algumas conquistas, como a decisão do STF em equiparar como um crime de racismo a LBGTfobia. Como você sente essas conquistas no seu dia a dia? Elas realmente tiveram um impacto?
Filomena: Olha, tiveram um impacto em eu ter como me encontrado no mundo. Ter como achar a minha pessoa, encontrar o amor mesmo, saber que tava tudo bem e que aquela vida era possível. Foi super importante.
Godofredo: Apesar de ter me causado conforto, enxergo como um passinho bem miudinho. Infelizmente muitos homofóbicos saem impunes após cometer crimes ou apenas são obrigados a pagar multas com um valor baixíssimo.
– Qual a importância de existir um Dia Internacional contra a Homofobia?
Filomena: É importante saber que existe um marco onde nossas dores podem ser mais evidenciadas, não que essa data representa que superamos o problema mas que estamos tendo abertura para falar dele.
– Como vem sendo a tomada de espaço pela juventude LGBT e como ela se posiciona nesse cenário de luta? Você sente que sua voz é ouvida?
Filomena: Nunca me posicionei como uma mulher bissexual nos espaços justamente por não encontrar apoio para isso. Atualmente isso vem mudando mas ainda não encontrei uma segurança.
*Os nomes dos entrevistados são fictícios nesse texto. Não é fácil (ainda) nessa sociedade nos afirmar com segurança quanto a sexualidade. Expor histórias e dividir esses processos já é um grande caminhar nesse contexto de mudanças, para que sejamos LIVRES E IGUAIS, independente de nossas orientações. Agradecemos todxs que toparam essa conversa para nos inspirar ir sempre além e cuidar de quem tá ao nosso redor <3
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A cultura de paz é uma demanda da sociedade mundial em busca de um mundo melhor e mais justo. Não pode haver cultura de paz sem igualdade de direitos para todas as pessoas, independentemente de qualquer traço pessoal. Assim, no dia 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia, promova a tolerância, o respeito ao próximo e apoie a igualdade de direitos em todas as instâncias de gênero e diversidade sexual.
Os incomodados que se mudem, porque o amor vai continuar!
