Entrevista feita pelo Articulador Carlos Victor
Imagem do Fernando Martinho
Existe hora melhor que agora para falar de Biodiversidade e Clima?
Acabamos de voltar do Egito, da Convenção sobre Diversidade Biológica, onde estivemos com 3 jovens representando o Engajamundo na #COP14. Além disso essa semana começou, na Polônia, a Conferência de Mudanças Climáticas (#COP24) e por isso resolvemos chamar uma especialista incrível para responder algumas perguntinhas sobre esses dois grandes temas que tem deixado a galera bastante preocupada.
Convidamos Aliny P. F. Pires que é doutora em Ecologia pela UFRJ, trabalha atualmente na Universidade Federal do Rio de Janeiro e recentemente foi convocada para assumir um cargo de professora na Universidade Estadual do Rio de Janeiro ~parabéns Aliny. Ela é da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, desenvolve trabalhos na Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos e é da Rede Brasileira de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais.
Engajamundo: Aliny, como você vê o papel do Brasil nas pautas de biodiversidade e mudanças climáticas com o andar das novas mudanças do governo? Você recomenda algo para aqueles menos familiarizados?
O Brasil é o protagonista!
Não importa as mudanças de governo, o país sempre terá um papel de destaque quando o tema é biodiversidade e mudanças climáticas. Para aqueles que não estão muito familiarizados com este tema, vale a pena dar uma olhada no trabalho de duas inciativas nacionais voltadas exclusivamente para eles; o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) e a Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES). Estas plataformas incluem cientistas e tomadores de decisão com diversas expertises para compilar o melhor conhecimento disponível!
Ambas iniciativas convergem para fato de que as mudanças climáticas se tornarão o principal vetor de perda de biodiversidade do planeta, tomando a posição dos efeitos associados a perda de habitat e comprometimento da vegetação nativa.
Engajamundo: Qual seria a inter-relação entre mudanças climáticas e biodiversidade?
Basicamente, “quando a coisa esquenta”, as espécies possuiriam três opções: resistir ao aumento de temperatura, se deslocar para uma região com clima mais ameno ou se adaptar ao novo clima. Nem sempre estas opções são possíveis ou há tempo suficiente para que elas se tornem possíveis. Se considerarmos ainda os efeitos indiretos, via modificação na interação entre espécies e a interação com outros estressores, como a poluição e a invasão de espécies, os efeitos das mudanças climáticas podem ser ainda mais catastróficos. Alguns grupos são especialmente sensíveis e sentinelas destes efeitos, por exemplo, anfíbios possuem hoje uma taxa de extinção cerca de 45 mil vezes maior do que o esperado e possuem um declínio expressivo em sua diversidade. Estes e outros organismos serão criticamente afetados pelas mudanças do clima.
Engajamundo: Como reagir a estes efeitos? Como minimizar os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade?
Talvez a resposta esteja na própria biodiversidade.
Entre as funções da biodiversidade, aquela que agrega maior valor intrínseco é sua capacidade de garantir que as coisas continuem funcionando como devem, promovendo a estabilidade dos ecossistemas diante de distúrbios ambientais. O principal mecanismo é relativamente simples. Diferentes espécies apresentam diferentes sensibilidades e estratégias de resposta às mudanças do clima, se uma não vai bem, outra pode compensar este efeito. Isto faz com os ecossistemas mantenham sua funcionalidade, o que facilita, inclusive, a recuperação das espécies que foram negativamente afetadas pelas mudanças do clima. Ou seja, conservar a biodiversidade ajuda sistemas naturais a responderem as mudanças no clima e garante que os benefícios providos por eles sejam mantidos.
Engajamundo: Parece incrível! O mesmo pode valer para sistemas antrópicos?
O mesmo vale para sistemas antrópicos!
Você já ouviu falar de Adaptação baseada em Ecossistemas? Trata-se de uma estratégia de adaptação as mudanças do clima que combinam conservação e recuperação de sistemas naturais, protegendo populações vulneráveis. Um exemplo que ilustra bem esta situação é a conservação do manguezal, que protege a costa dos efeitos físicos do aumento do nível do mar ao mesmo tempo que é fonte de renda para populações tradicionais que utilizam os recursos naturais providos por estes ambientes.
Assim, a biodiversidade ao mesmo tempo que sofre com as mudanças climáticas, é capaz de responder a elas de diversas maneiras, como em uma batalha.
Engajamundo: Você fala de uma batalha, quais seriam os pontos que mudariam de vez o nosso lado para biodiversidade e mitigação e adaptação das mudanças do clima?
Estamos vivendo um momento crucial. Veja só:
1 – O último relatório especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que trata sobre um planeta 1,5º C mais quente não é muito otimista. Ainda é incerto se vamos ou não conseguir manter este nível de aquecimento até o final do século. Basicamente, duas possibilidades soam mais promissoras: uma mudança na dieta com redução no consumo médio de carne bovina ou uma transformação na matriz energética global, focada na extinção de matrizes energéticas emissoras de carbono para atmosfera, como o uso de combustíveis fósseis e carvão.
2 – A BPBES acaba de lançar um documento sobre o conhecimento existente sobre biodiversidade brasileira e como ela é importante para o nosso bem-estar e estratégica para o desenvolvimento social e econômico do país. Este trabalho, esforço de mais de 120 pesquisadores das diversas regiões do país, traz como principal mensagem: “Biodiversidade não é problema, biodiversidade é solução”. E ainda este ano, será lançado um relatório temático sobre biodiversidade, clima e sustentabilidade! A sua versão em português será lançada no dia 19 de dezembro no Rio de Janeiro e a versão em inglês na COP 24 no espaço Brasil. Aguardem!
3 – O novo governo brasileiro ainda não apresentou o caminho que pretende traçar para a área ambiental do país. Em meio a discussão com a fusão com o Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, a liderança do Ministério do Meio Ambiente ainda permanece em aberto. Setores relacionados ao Clima e Biodiversidade já demonstraram os potenciais riscos de escolhas erradas.
4 – Acabamos de vivenciar a maior reunião sobre Biodiversidade do planeta, na COP do Egito e no mês de dezembro reuniremos os maiores especialistas na COP do Clima, na Polônia! Ou seja, decisões sobre como seguiremos em relação a este tema estão sendo feitas agora: enquanto você lê este texto.
5 – Há a indicação para o Brasil ser o país sede da COP do Clima do ano que vem e isto pode ser crucial para ressaltar ainda mais o protagonismo do país. Se tirarmos pelo bem-sucedido Fórum Mundial da Água, temos tudo para trazer o evento.
Engajamundo: Que incrível e inspirador Aliny!!! Você poderia dar uma breve mensagem final?
O Brasil é o protagonista e não pode perder sua liderança!
Sabemos o que têm que ser feito! E sabemos que a hora é agora!
