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LGBTQIAP+ e Justiça Climática: intersecções urgentes!

Patricia Richter

Patricia Richter

Anne Heloise Barbosa do Nascimento

Articuladora do GT de Gênero do Engajamundo e Membro da Ação Feminista para a Justiça Climática da ONU Mulheres.

Imagem da capa Patricia Richter

Para ter essa conversa, primeiramente, precisamos deixar bastante evidente que a luta pelo clima envolve pessoas, ou seja, ela tem uma dimensão social, para além de todas as questões e dados científicos que permeiam a pauta. Desse modo, se o meio ambiente está em desequilíbrio, alguém está sofrendo com isso. Na maioria das vezes, esse alguém se constitui de uma pessoas socialmente vulnerável, pertencente a alguma(s) minorias sociais. 

A partir desse contexto, podemos afirmar que a crise climática atinge em cheio a comunidade LGBTQIAP+. Como exemplo disso, é possível citar as pessoas pertencentes a ela que estão em situação de rua. De acordo com os relatores da Organização das Nações Unidas (ONU), ‘’a população LGBT está mais presente nas ruas que a população não-LGBT’’. Essa incidência muitas vezes se dá entre jovens, os quais são alvo de  rejeição familiar e discriminação no ambiente escolar. 

Uma vez na rua, essa camada da sociedade está vulnerável aos mais variados tipos de violências, bem como ao abandono educacional. Segundo a Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe), 46% dos LGBTQIAP+ que vivem nessas condições já foram barrados em lugares públicos, já os heterossexuais representam 30% deste índice. Porém para, além disso, essas pessoas também se encontram sujeitas aos grandes desafios climáticos do nosso tempo, como a alta da temperatura, bem como períodos frios, poluição, falta de saneamento,  deslizamentos de terra, entre outros problemas típicos da (falta de) organização de nossas cidades. 

De acordo com a organização EmpoderaClima, durante o furacão Katrina em 2005, pessoas trans enfrentaram discriminação em abrigos de emergência e algumas foram até mesmo rejeitadas nos estados americanos de Mississippi e Louisiana. Já no terremoto haitiano de 2010, pessoas e famílias LGBTQIAP+ ficaram vulneráveis em abrigos e lésbicas, mulheres bissexuais, transgêneros e intersexuais foram sujeitas à violência de gênero e ao “estupro corretivo”. 

Foram pesquisados dados sobre pessoas LGBTQIAP+ e grandes desastres ambientais brasileiros, como Brumadinho, Mariana e os frequentes deslizamentos de nossas encostas durante o inverno, porém, aparentemente, essa informação não é coletada, ou publicizada, pelo poder público, o que contribui para a marginalização e precarização da vida desses indivíduos. 

Por tudo exposto, entende-se que o maior desafio do movimento climático atual é quebrar essa rotina de silenciamento e incluir, dar espaço e visibilidade, para que essas vozes exponham a sua luta e a sua história. Desse modo, a justiça climática precisa ser compreendida como espécie do gênero de justiça social, a qual deve ser construída por diversas mãos, de forma a trazer aqueles que estão na margem para o centro. 

Texto feito em homenagem ao jovem Lindolfo Kosmalski, de 25 anos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), morto em 03 de maio de 2021, vítima de homofobia.

Referências

Discriminação aumenta risco de jovens LGBTI irem morar na rua, dizem relatores. Organização das Nações Unidas (ONU). Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/83940-discriminacao-aumenta-risco-de-jovens-lgbti-irem-morar-na-rua-dizem-relatores. Acesso em 20 jun. 2021

MENEZES, Everton. Por um triz: o drama dos LGBTs em situação de rua na maior metrópole do Brasil. Yahoo. Disponível: https://br.noticias.yahoo.com/drama-lgbts-situacao-rua-sp-070057113.html?guccounter=1&guce_referrer=aHR0cHM6Ly93d3cuZ29vZ2xlLmNvbS8&guce_referrer_sig=AQAAAGDVUQXvXaM3zSkC3CQToUU-boKvFGYVH43Oi9KXBXKzZjREnkXYsMSKkfXhayUcmQq_0nX9T1eT3DYIOjxuFZgiU4QUWLsK0QrKj-f7jm9_DOvvuYGKjADFhDBGFqs51N2tetAt6nfZYhRLSGshwJ1vzj5IRVz1Kra5Ggawl5sZ. Acesso em 20 jun. 2021

IGLESIAS, Luis; HOLLAND, Ruth. Por que as Mudanças Climáticas são uma questão LGBTQIA+?EmpoderaClima. Disponível em: https://www.empoderaclima.org/pt/base-de-dados/artigos/mudancas-climaticas-lgbtq. Acesso em 20 jun. 2021.

MENDONÇA, Ana. Corpo de ativista LGBT ligado ao MST é encontrado carbonizado. Correio Brasiliense. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2021/05/4921982-corpo-de-ativista-lgbt-ligado-ao-mst-e-encontrado-carbonizado.html. Acesso em 20 jun. 2021. 

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